Simulação, cavadinha, fingimento: existe espaço para a ética no futebol?

  • Por Luiz V. Andreassa/Jovem Pan
  • 20/02/2015 16h37
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No fim do primeiro tempo das oitavas de final da Liga dos Campeões, o PSG perdia para o Chelsea, em casa, por 1 a 0. O árbitro marcou uma falta a favor do time francês, e, como de costume, demarcou com spray o lugar onde a bola deveria ficar. O zagueiro David Luiz, então, apagou a marca com as mãos e mudou a bola de lugar. A trapaça não deu resultado no lance, mas foi o bastante para suscitar críticas pelo mundo. Afinal, o que o brasileiro fez foi antiético? Ou isso não se aplica ao futebol? Será algo que só os brasileiros fazem esse tipo de cosia?

Para responder a essas perguntas, a Jovem Pan Online falou não com um ex-boleiro ou alguém do meio futebolístico, mas com o filósofo e professor de ética e filosofia política da USP Renato Janine Ribeiro. Para ele, a ética deve ser aplicada a todos os campos da vida, especialmente aqueles em que se faz menos presente.

Jovem Pan Online: O comportamento do David Luiz na partida contra o Chelsea pode ser considerado antiético?

Renato Janine Ribeiro: Claro. Ao fazer isso, o jogador alterou o local da bola para prejudicar o rival e lançou uma mancha sobre o jogo. No futebol, nada garante que os acontecimentos serão iguais – um lance pode mudar toda a sequência do jogo. Por isso mesmo é importante que o resultado satisfaça todos os lados, e todos sintam que o jogo foi pautado por regras justas. 

JP: A ética pode ser aplicada a contextos como o futebol, que parece um mundo a parte, com suas próprias regras e costumes?

RJR: É justamente nesses ambientes que é importante levantar a bandeira da ética. Temos também o caso da Beija Flor, no carnaval, que foi financiada por um bandido, um ditador. E depois disseram que o carnaval é financiado pela contravenção, que sem ela era mal organizado, o que significa que o Estado faliu. Por que o espetáculo não pode ser bonito dentro da ética? No caso do futebol, se deixar a ética de lado, nada entra no lugar, não há jogo.


JP: 
Esse caso do David Luiz, e outros parecidos no futebol brasileiro, como as simulações de falta e até a “cavadinha” nos pênaltis (considerada injusta com os goleiros), refletem algo de cultural do Brasil?

RJR: “Cultural” é um termo muito vago; cultura inclui todo mundo, e ninguém acaba respondendo por isso. O jogo baixo é uma questão que necessita de educação democrática, para entender que vencer roubando não é uma vitória. Na política, por exemplo, vamos supor que houvesse impeachment sem provas – por enquanto não há. Quem entrar no lugar estará desmoralizando o processo político, e os outros 51% que votaram na presidente vão sentir que o jogo é viciado, e não vão querer jogar – e isso pode desencadear revoltas. É preciso acreditar nas regras do jogo, acreditar que ele é limpo.                                                                                                                                       

JP: Então existe relação entre as atitudes desonestas no futebol e as na política?

RJR: O futebol é parecido com a política brasileira pela vontade enorme de burlar as regras. Existem regras que devem ser aplicadas. Ou elas são seguidas, ou não existe jogo. A sociedade brasileira, pela experiência que eu tenho, é mais leniente com certas condutas antissociais, como a corrupção, a “carteirada” etc. É algo muito difundido. A coisa mais comum é pregar ética e agir de maneira diferente. E isso nem passa pela cabeça dessas pessoas, mesmo aqueles que falam muito em ética – pois existe a ideia de que os fins justificam os meios. Sobretudo no esporte, isso não pode ser feito.

JP: Existem aqueles que tentam “suavizar”, ou diminuir as consequências dos atos antiéticos como sendo algo do brasileiro, do malandro, da ginga, que é parte de nossa identidade também no futebol.

RJR: Você tem de renegociar os lugares. Brincar, estar na rua, se divertir, tirar uma pessoa do sério no bom sentido, isso é uma coisa boa. Seria uma bobagem tirar nosso lado informal; não devemos matar o esporte e a ginga, mas apontar o fato. As questões que sou contra são as que prejudicam outras pessoas, ou quando o outro time é prejudicado. Sem contar o exemplo ruim: no caso, o jogador dá um exemplo de que as pessoas podem fazer como ele. Além disso, temos o carnaval, que são dias de recessão, para abrir mão da seriedade, brincar, rir. É uma convenção e uma ótima válvula de escape, que existe desde a antiguidade, mas não é para ser assim no resto do ano. No futebol, que ocorre o ano todo, duas vezes por semana, é outra história. Não é uma válvula de escape. Não é possível 22 jogadores jogarem sem nenhum preceito ético.

JP: Jornais ingleses criticaram a atitude do David Luiz. No Brasil, temos a impressão de que os europeus são mais honestos, menos corruptos, e eles que nós somos o contrário. Isso corresponde à verdade? É possível medir isso e afirmar que são mais honestos que nós?

RJR: É complicado medir o grau de ética de uma sociedade. Mas, como eu disse, a sociedade brasileira é mais leniente com certas condutas. Somos um país de desigualdade social gritante, e muita gente da classe média não percebeu que isso também é antiético e corrompe a sociedade brasileira. Assim como a escravidão corrompeu os brancos e os ricos, pois não valorizou o trabalho e a dedicação na sociedade, mas sim a exploração. E nós ainda temos essa característica. No Brasil, numa loja de calçados, o vendedor se ajoelha para colocar no pé do cliente. Na Europa não há isso. E nós nem notamos, pois é parte da paisagem. Existe uma fronteira tênue entre alguém que faz um ato por saber, como o David Luiz, e aquelas que jamais pensam que os seres humanos são iguais. No fundo, a antiética está ligada à ideia de desigualdade de direitos.

JP: A FIFA vem tentando implantar o fair play no futebol. O que o senhor acha de uma entidade tentar impor um comportamento ético de maneira externa e de forma não “natural”?

RJR: Acho muito bom que a FIFA tome essa iniciativa. Agora, ela própria tem uma liderança muito duvidosa (por conta de diversos casos de corrupção), e não tenho certeza se é a melhor entidade para fazer isso. O problema é nossa educação ser muito pouco efetiva no desenvolvimento da ética. É incrível como nossa sociedade tem uma grande dificuldade de valorizar as condutas boas. Na TV, quem é ético é retratado como gente chata. Nas novelas e filmes não há aluno contente com a aula; na escola as pessoas bufam, olham com cara de tédio, querem ir pra balada. As pessoas, educadas desse jeito, têm horror pela escola e paixão pela vida fácil. Quando você não tem uma educação boa nesse sentido, impor a punição talvez seja o remédio mais adequado. A educação ética tem de ter um grande princípio: de que todos têm os mesmos direitos, então não vou fazer com os outros o que não gostaria que fizessem comigo. Se quero ser tratado bem, devo tratar bem – mas infelizmente estamos muito longe disso.