Apesar dos fracassos sociais, Bolívia renovou confiança em Morales em 2014

  • Por Agencia EFE
  • 19/12/2014 21h09

Lorena Cantó.

La Paz, 19 dez (EFE). – A Bolívia revalidou em 2014 sua confiança em Evo Morales ao elegê-lo presidente pela terceira vez, em um ano no qual a economia do país cresceu, embora com a sombra de fracassos sociais, como a violência contra mulheres e crianças.

Os bolivianos foram às urnas em 12 de outubro e respaldaram Morales com apoio de 61,36% frente a uma oposição fragmentada e com fracos programas que não conseguiram derrubar os contundentes resultados econômicos obtidos pelo atual governo, que incluem uma notável redução da pobreza extrema.

No entanto, oposição e imprensa criticaram o governo e questionaram a legitimidade deste terceiro mandato, já que a Constituição promulgada em 2009 pelo próprio presidente limita a dois mandatos consecutivos o exercício de um presidente.

O principal temor com que os opositores encerram o ano é que, reforçado com esta nova maioria absoluta, o governo impulsione uma reforma constitucional que permita a reeleição indefinida do atual líder.

A bonança econômica boliviana, que em 2013 alcançou um crescimento recorde de 6,5%, se manteve em 2014 com uma previsão superior a 5%, o maior crescimento da região, aquecido, principalmente, pelas vendas de gás a Brasil e Argentina.

Ao longo do ano, foram geradas prospecções de jazidas de hidrocarbonetos em zonas não exploradas do país, última esperança para enfrentar o impacto que terá sobre os cofres estatais do país andino a tendência de baixa dos preços do petróleo e do gás.

As boas finanças permitiram que a Bolívia recebesse em junho na cidade de Santa Cruz os líderes do G77 e a China para celebrar os 50 anos da criação do grupo e discutir uma agenda de desenvolvimento internacional pós 2015.

Este fórum também permitiu ao país andino se colocar como um dos mais combativos membros do bloco bolivariano Alba e da Unasul, mas aumentou a brecha entre a Bolívia e os países que formam a Aliança do Pacífico, entre eles o vizinho Chile. Com este, a relação bilateral piorou neste ano por conta da disputa marítima entre os dois países, que está, atualmente, na Corte Internacional de Justiça de Haia.

Não houve uma semana de 2014 sem que ambos os governos não trocassem acusações sobre este assunto, do qual os dois lançaram uma ofensiva diplomática internacional para defender suas respectivas posturas.

Com o Brasil também houve momentos de tensão. O país parece ser o refúgio preferido daqueles que se consideram perseguidos políticos do governo de Evo Morales. Se no ano passado foi o senador opositor Roger Pinto, acusado pela Justiça boliviana de corrupção, quem escapou para o Brasil após um ano e meio refugiado na embaixada brasileira em La Paz, em março deste ano foi o ex-promotor Marcelo Soza, também acusado de corrupção em um polêmico caso judicial, seguiu o mesmo caminho.

No entanto, não foi a política externa o assunto que mais abalou o governo boliviano nos últimos meses, mas sim as graves marcas sociais dentro do país. A Bolívia manteve este ano o triste posto de líder nas taxas de violência machista na região, segundo dados da ONU, e as agressões contra as crianças também ocuparam várias capas de jornais e estremeceram a sociedade boliviana.

Embora no ano passado tenha sido sancionada uma lei contra a violência machista que tipifica o feminicídio e o castiga com 30 anos de prisão sem direito a indulto, a maior pena do país, a legislação não só não freou o problema, como os assassinatos de mulheres aumentaram em 2014.

Evo Morales, no entanto, nega que a violência machista tenha aumentado e atribui o alto número de casos ao fato de agora esses crimes serem denunciados. No entanto, pediu à população uma reflexão para eliminar este problema.

Segundo dados do Centro de Informação e Desenvolvimento da Mulher (Cidem), de janeiro a outubro deste ano, 169 mulheres morreram de forma violenta no país, mas nesse mesmo período as sentenças ditadas por feminicídio não chegaram a dez.

Essa situação entronca diretamente com a grave crise que a Justiça atravessa no país, reconhecida pelo próprio Executivo, que chegou a qualificá-la de “vergonhosa” e a ameaçar prender os juízes e promotores que não cumprissem adequadamente suas obrigações.

De fato, um dos primeiros passos que o governo pretende dar na nova legislatura passa por uma profunda reforma do sistema judiciário, embora analistas juristas advirtam que tal transformação radical poderia pôr a Justiça sob o controle direto do Executivo. EFE