Aeroporto de onde arremeteu avião de Campos tem antena obsoleta, relata especialista do CENIPA

  • Por Jovem Pan
  • 14/08/2014 18h16
Renata Perobelli/Jovem Pan Confira fotos exclusivas do acidente com avião de Eduardo Campos

O sistema de antenas direcionais (NDD) que funciona no Aeroporto de Guarujá é uma tecnologia que está sendo desativada no Brasil todo, diz o agente de segurança de voo Jorge Barros, perito formado pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos). Foi do local que a aeronave que levava Eduardo Campos e sua equipe arremeteu (levantou voo novamente, desistindo do pouso), antes de fazer a curva e cair no canal 3, em Santos, provocando a tragédia.

“(A antena) dá um sinal muito impreciso, sofre efeito da atmosfera, muda de direção”, explica Barros, que também é inspetor de aviação civil.

“As autoridades ainda não sabem qual é o uso daquele aeroporto; enquanto isso ele não é nem vocacionado ao uso de helicópteros, nem vocacionado ao uso de aviões”, afirma Barros. “Então isso pode ter tido algum peso na hora de dar apoio correto às operações daquele avião (de Campos)”.

O perito reconhece a modernidade da aeronave envolvida na tragédia (Cessna 560XL). Algo inútil, se o equipamento de terra for defasado. “Soa uma certa incompatibilidade entre a modernidade do avião e o recurso ainda muito arcaico que aquele aeroporto tem para chamar o avião para o pouso”, diz.

Barros explica que aeroportos modernos utilizam sistema de navegação por GPS norte-americano, que consegue cobrir toda a superfície da Terra.

É nos Estados Unidos, inclusive, que o piloto do Cessna tem que aprender a comandar o painel da aeronave. “(Os pilotos) aprendem a pilotar no cenário norte-americano, não no brasileiro”, questiona o especialista.

Ainda se investigam as causas do acidente de avião que tirou a vida de Eduardo Campos nesta quarta.

Barros explica que levantam-se várias hipóteses quando um acidente ocorre. As três que o especialista destaca são falha do funcionamento do avião, má condução do piloto ou falha na antena de navegação do aeroporto.

A Comissão colocará equipes para avaliar cada um das possibilidades e, depois de 30 dias, a entdidade deve emitir relatório preliminar.

O agente de segurança de voo descarta a possibilidade de o mau tempo ter causado a queda, lembrando que milhares de aeronaves pousam e sobem voo em más condições todos os dias sem maiores dificuldades.

“A questão que me chama mais atenção nesse momento é que aquele aeroporto de Guarujá está sem receber investimentos há muitos anos”, relata Barros.

“As autoridades não sabem exatamente qual é a vocação do uso do aeroporto”, se para receber helicópteros ou pequenos aviões, conta o agente. “Isso pode ter tido algum peso na hora de dar o apoio correto às operações daquele avião”, avalia.

A base aérea de Santos, local de onde arremeteu o avião de Campos, é hoje de uso exclusivo militar, mas uma área cedida pela FAB está próxima de se tornar o Aeroporto Civil Metropolitano de Guarujá.

Mais treinamento

Jorge Barros avaliou ainda os sistema aéreo brasileiro em geral.

Para ele, a “fiscalização da ANAC tem aumentado e a qualidade das aeronaves melhorada”, mas o que tem que melhorar é o treinamento dos profissionais – pilotos, técnicos de solos e gerentes de aeroportos.

“A melhoria do treinamento e na formação dos tripulantes tem sido o maior desafio da ANAC”, avalia o técnico formado na CENIPA.

Embora elogie a fiscalização da Agência Nacional da Aviação Civil, Barros acredita que ela deva ser espalhada ainda para além dos grandes centros.

“Se nós pousarmos em Congonhas, Campo de Marte, Jacarepaguá, Pampulha em Belo Horizonte, provavelmente nós vamos receber a visita do inspetor da ANAC”, diz.”Agora, se nós pousarmos em Altamira, Jacareacanga, Xavantina, algum lugar mais remoto, algum lugar mais remoto, nenhum inspetor da ANAC aparece por lá”, compara Jorge Barros.

Barros pede também uma melhoria na legislação que autorize o inspetor da ANAC a cobrar corretamente um treinamento adequado ao piloto. Que ele esteja adequado ao local onde ele voará e à máquina que será pilotada.

“As escolas de pilotos hoje não ensinam ninguém a navegar por GPS. Ensinam apenas a navegar por sistemas tradicionais de navegação que estão sendo muitos deles sendo desativados”, conclui.