Transplantados relatam falta de medicamento essencial para evitar rejeição

O remédio Tacrolimo é um imunossupressor que precisa ser tomado pelo resto da vida, para que o órgão doado não seja rejeitado pelo organismo

  • Por Nicole Fusco
  • 03/05/2019 08h00 - Atualizado em 03/05/2019 10h46
Reprodução/TV RecordO imunossupressor Tacrolimo é essencial para os pacientes que fizeram transplante, pois evita que o órgão doado seja rejeitado

Depois de passar nove meses por sessões de hemodiálise, a aposentada paulistana Luciana Dragone recebeu, em de março de 2013, um rim do marido, com quem está casada há 21 anos. Seis anos depois da cirurgia, ela receia perder o órgão transplatado por falhas do governo de São Paulo na distribuição das doses necessárias do medicamento Tacrolimo, um imunossupressor que precisa ser administrado pelo resto da vida para que o organismo não rejeite o órgão.

A substância, entretanto, não tem sido distribuída com regularidade desde março. A compra é feita pelo Ministério da Saúde, que repassa o medicamento para para as chamadas Farmácias de Alto Custo nos estados — não é possível encontrá-lo em farmácias comuns. O preço de mercado é de R$ 3.500 por caixa.

Na última quinta-feira (25), a Jovem Pan acompanhou a jornada da aposentada Luciana Dragone em busca da substância em uma dessas unidades de “Alto Custo”, no bairro da Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo. Ao chegar ao local, porém, a notícia no balcão foi desalentadora: devido à falta de abastecimento, a quantidade liberada para cada usuário passou a ser racionada e só supre dez dias de medicação.

No caso de Luciana uma caixa de Tacrolimo dura no máximo um terço do mês — ela utiliza dez cápsulas por dia. E aí começa o drama dos transplantados. Para não correr o risco de interromper a medicação de uso contínuo, ela necessita recorrer à ajuda de outras pessoas que passaram por procedimentos similares, mas que hoje fazem uso de doses inferiores do remédio — e até cartelas que foram retiradas por pessoas que acabaram morrendo.

“Pego uma caixa e só volto no mês seguinte porque o resto desse mês fico sem [remédio] ou pego de doação”, reclama Luciana. “Na internet, há um grupo de transplantes renais e eu peço lá. Pego uma cartela aqui, uma dali e assim vai.”

A fila é longa

Também aposentado, José Antonio da Silva enfrentou a extensa fila que se formava na quadra da Farmácia de Alto Custo no mesmo dia. Transplantado há seis anos, ele disse à reportagem da Jovem Pan que se arrisca ingerindo outros remédios na falta do Tacrolimo.

“Fui quebrando um galho com outro remédio para não perder o transplante, mas o certo é o Tacrolimo que tem que tomar”, diz. “Não tem remédio para nós, pobres. O governo está castigando a gente”, completou.

Já Waldemar de Carvalho Filho tratou o problema no rim por 19 anos, até receber um órgão de um doador vivo. “O transplantado não pode ficar sem Tacrolimo, que é o imunossupressor. É impossível”, afirmou.

O que diz o governo

Em nota, a Secretaria de Saúde do governo de São Paulo afirmou que, para o primeiro trimestre deste ano, foram solicitados 592,2 mil comprimidos de Tacrolimo 5mg, e 10,3 milhões de unidades do Tacrolimo 1mg. O governo federal, no entanto, entregou, 436,1 mil e 6,4 milhões comprimidos, respectivamente.

Para o segundo trimestre, a secretaria solicitou 10,1 milhões de comprimidos de 1mg e 489,7 mil de 5mg. O prazo para entrega era 20 de março, mas o primeiro lote foi entregue no dia 16 de abril, com 811,7 mil comprimidos de Tacrolimo 1mg.

O texto diz ainda que a redistribuição para todas as farmácias é realizada à medida que o Estado recebe os medicamentos.

Leia abaixo a nota na íntegra:

“A Coordenadoria de Assistência Farmacêutica informa que o medicamento Tacrolimo nas dosagens de 1mg e 5mg é comprado e enviado aos Estados pelo Ministério da Saúde.
Para o primeiro trimestre de 2019, foram solicitados 592,2 mil comprimidos de Tacrolimo 5mg e 10,3 milhões de unidades do Tacrolimo 1mg, mas o governo federal entregou, respectivamente, 436,1 mil e 6,4 milhões comprimidos.
Para o segundo trimestre a pasta solicitou 10,1 milhões de comprimidos de 1mg e 489,7 mil de 5mg. O prazo para entrega era 20 de março, mas o primeiro lote foi entregue no dia 16 de abril, com 811,7 mil comprimidos de Tacrolimo 1mg. A redistribuição para todas as farmácias é realizada à medida que o Estado recebe os medicamentos.”

Em nota, o Ministério da Saúde informa que em abril foram entregues 1.623.400 unidades do medicamento Tacrolimo 1 mg a São Paulo, quantidade solicitada pelo gestor estadual. Entretanto houve retificação do governo estadual no mesmo mês, para serem enviadas mais 5,7 milhões de unidades do fármaco. A pasta já solicitou antecipação de 2 milhões unidades junto ao fornecedor, que aguarda resposta de agendamento de entrega pelo almoxarifado de São Paulo.