Aumento a servidores faz policiais aumentarem pressão sobre governo; ministro é escalado para aplacar crise

Reunião entre Anderson Torres e representantes da categoria foi tensa e inconclusiva; aliados do Planalto falam em ‘bomba fiscal’ no colo do ministro da Economia, Paulo Guedes

  • Por André Siqueira
  • 19/04/2022 16h44 - Atualizado em 19/04/2022 18h07
FáTIMA MEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO FUP20220308093 - 08/03/2022 Homem de terno em evento do governo Anderson Torres comentou sobre o desaparecimento de Bruno e Dom na região amazônica

O governo do presidente Jair Bolsonaro sofreu um choque de realidade na noite desta segunda-feira, 18. Em uma reunião com o ministro da Justiça, Anderson Torres, representantes de sete associações de classe da Polícia Federal (PF), da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) manifestaram insatisfação com a proposta de reajuste de 5% para todo o serviço público e cobraram do Planalto uma “atenção especial” para as categorias que integram a base de apoio da gestão federal. Segundo apurou a Jovem Pan, o clima foi tenso e a agenda, inconclusiva. À reportagem, deputados governistas que participaram do encontro afirmaram que Bolsonaro e seus auxiliares precisarão ter “jogo de cintura” para evitar a explosão do que classificaram como “barril de pólvora”.

“Não avançou nada, nadinha”. Foi desta forma que um deputado da bancada da bala resumiu a reunião da noite desta segunda-feira. De acordo com relatos feitos à Jovem Pan, os representantes da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal disseram ao ministro da Justiça que, ao propor um reajuste linear de 5% para todo o funcionalismo público e deixar em segundo plano a ideia de reestruturação das carreiras policiais, o governo “daria um tiro no pé” por “igualar os desiguais”. Anderson Torres, por sua vez, afirmou que não há nada definido e que o governo Bolsonaro não desistiu da reformulação. Policial federal de carreira, Torrres foi escalado pelo Planalto para tentar aplacar a crise.

Na tarde desta terça-feira, 19, a Federação Nacional dos Policiais (Fenapef) se manifestou sobre a crise. “A reunião dos parlamentares da bancada da segurança pública com o governo federal não trouxe avanços positivos e os policiais querem uma proposta concreta; até agora, o que temos são promessas não cumpridas e notícias divulgadas pela mídia”, diz Marcus Firme, presidente do órgão, em nota divulgada à imprensa. “A expectativa não concretizada fomentou uma insatisfação muito grande entre os policiais federais, que cobram a promessa do presidente Bolsonaro de que R$ 1,7 bilhões do Orçamento Geral da União seriam investidos na reestruturação da carreira e correção das perdas acumuladas nos últimos anos. A reivindicação vai muito além do simples reajuste de 5% para os salários, anunciado pelo governo por meio da imprensa”, segue o comunicado. Ainda segundo a Fenapef, nos próximos dias, os representantes dos 27 sindicatos dos policiais espalhados pelo país irão promover Assembleias Gerais Extraordinárias (AGEs) nos Estados e no Distrito Federal para deliberar sobre manifestações com representantes de todas as entidades do sistema sindical das forças policiais da União. “A ideia é que, em cada Estado, tenhamos um dia de protesto, possivelmente a próxima quinta-feira [28 de abril], para demonstrar nossa indignação com a forma como os policiais federais estão sendo tratados”, diz Firme.

O impasse envolvendo o reajuste aos servidores preocupa o governo, em especial integrantes do Ministério da Economia. E há uma razão para isso. Os policiais tinham a promessa de ter R$ 1,7 bilhão de reais do Orçamento para reestruturar e dar aumento à categoria. Para contemplar todo o funcionalismo público, porém, o custo estimado é de cerca de R$ 8 bilhões. Sem espaço orçamentário suficiente, o Planalto precisará cortar de outras áreas. “Vão empurrar essa bomba fiscal para o colo do Paulo Guedes, ele que se vire. Não sabemos o que será feito, mas há uma certeza: o governo vai precisar se mexer. Em um ano eleitoral, seria um tiro no pé insistir em um aumento irrisório ou prescindir do apoio de uma categoria que está com Bolsonaro desde o começo”, afirmou à Jovem Pan um participante da reunião da noite da segunda.