A mesma mídia que endossa autoritarismo e fake news chama de bárbaros os que lutam por liberdade

William Bonner diz que só grande mídia luta pela verdade, mas sua emissora encampa o ‘fique em casa’ sem comprovação científica e o maior jornal do país publica artigo de Atilia Iamarino pedindo censura

  • Por Adrilles Jorge
  • 16/01/2021 08h00 - Atualizado em 16/01/2021 08h46
Reprodução/TV GloboWilliam Bonner defende mídia tradicional durante o "Jornal Nacional", mas sua emissora já disseminou notícias falsas que defendem isolacionismo

Existe uma velha luta entre liberdade e segurança. Um estado que oferece mais segurança limita sua liberdade. E liberdade total, para além de leis, gera irresponsabilidade e barbárie. Para uma sociedade ser funcional, é necessário um equilíbrio entre ambas. Um exemplo: seu direito de fumar não viabiliza fumar em locais públicos para não estragar a saúde de alguém. O seu direito de estragar sua saúde não permite que você estrague a saúde de terceiros com a fumaça de sua livre irresponsabilidade. Mas trancar todo mundo em nome de uma medida de isolamento não comprovada cientificamente legitima o autoritarismo de governantes e pseudoautoridades que arruínam vidas em nome da segurança e saúde de todos?

É o que diz o pseudocientista Atila Iamarino. Sem meias palavras, em artigo publicado pelo maior jornal do país, ele afirma que é necessário um autoritarismo urgente de vozes sacramentadas. Sem meias palavras. Que cerceie e cale vozes dissonantes ao isolacionismo não comprovado. Atila é aquele que quis aprisionar pessoas por tempo indeterminado, o que causaria fome, miséria, desespero, mortes, enfim… O que causou, aliás. Atila é aquele que gerou pânico e desespero na população brasileira, prevendo 3 milhões de mortos pela pandemia. Atila é aquele endossado até hoje pela grade mídia e pelo judiciário brasileiro como uma voz contra fake news. Atila é uma fake news viva e perigosa. Endossada pela grande imprensa.

Willian Bonner, num rasgo de fúria, disse que a mídia tradicional luta contra disseminadores de mentiras, representados por mídias alternativas que competem hoje ombro a ombro com a grande imprensa. Sua emissora endossou por meses o ”fique em casa” indiscriminado e não comprovado cientificamente, que nada achatou a curva de contágio ou reduziu número de mortes. Sua emissora faz uma campanha ostensiva contra o presidente, a quem, subliminarmente, culpa pelos mortos pela Covid-19 no Brasil, quando, na verdade, governadores e prefeitos foram responsáveis consagrados pelo STF a tomarem as rédeas no combate ao vírus chinês. Sua emissora propaga fake news, mas diz combatê-las. Não se pode cobrar total objetividade do jornalismo. Uma velha questão. A cobertura de um fato sempre terá conotações subjetivas do jornalista que a apura. Mas não se pode omitir fatos. Isto é antijornalismo.

Quando Bonner diz que só a grande mídia luta pela apuração da verdade, está inconscientemente mentindo para sua própria consciência. Porque ele sabe que a cobertura mais isenta dos fatos requer pluralidade. Se toda uma editoria tem um escopo ideológico, um fato será coberto por este viés ideológico. Quando mídias alternativas aparecem, que abrangem outros aspectos da notícia, o jornalismo ganha. A pluralidade de opções gera multiplicidade de discussão em torno dos fatos, da realidade mesma. Mas quando a grande mídia endossa um artigo que clama por autoritarismo de um lado ideologizado, deturpado da ciência, ou mesmo de uma anticiência camuflada, sem comprovação mínima das premissas, esta grande mídia incorre na sua anulação como veiculadora de percepções da realidade, como investigadora isenta da realidade.

Uma democracia pressupõe clamar por autoritarismo? Uma mídia que endossa liberdade pode clamar por exclusão de versões da realidade? Todo autoritário diz que sim, afirmando que outras versões que não a sua do real são mentirosas. Atila diz que vozes contra o isolacionismo, que não deu certo, produzem fake news. Bonner diz que vozes não pertencentes à grande mídia são bárbaras e desinformantes. As redes sociais agora excluem vozes conservadoras que dão versões não congruentes com uma perspectiva progressista dos fatos. As redes sociais excluem o próprio presidente dos Estados Unidos por não se coadunar à versão progressista dos fatos. Por versões progressistas dos fatos, leia-se isolacionismo indiscriminado que ceifa vidas por falta de trabalho, renda e saúde mental; falsa acusação de incitação à violência do presidente americano; acusação de genocídio ao presidente brasileiro, que clamou por liberdade individual e responsabilidade em relação à vacina. Por aí vai.

Bárbaros seriam os que se colocam contra estas múltiplas percepções de autoritarismo progressista. Reitero: liberdade e segurança muitas vezes lutam no aspecto de manutenção de uma sociedade, de um Estado e de uma mídia responsáveis. Mas a liberdade tem prerrogativa maior de sobrar em relação à segurança. Justamente porque a perseguição da verdade exige pluralidade e diálogo de vozes; justamente porque todo autoritarismo nasce em nome de uma falsa segurança: como a do isolaconiosmo de tiranos e apoiadores midiáticos de tiranos que trancam a vida das pessoas em nome de uma saúde que não chegou; em nome de um salvamento que não chegou; em nome de um cientificismo que não só não salvou vidas, mas ceifou outras tantas por fome, miséria, exclusão social, impedimento de escolas, impedimento de uma aprendizagem maior em relação à possibilidade do risco que é viver.

Toda ditadura nasce do predomínio da segurança e sacrifício da liberdade. Sempre vence, numa ditadura, um falso aspecto de segurança. A ditadura subliminar progressista em que vivemos nos força a ficar em casa, acuados, com medo maior das autoridades que nos comandam, comandam nossas vozes e nossos corpos ”para nosso bem”. Wiliiam Bonner chama de bárbaros aqueles que não estão na redoma autoritária progressista da grande mídia. Teriam invadido o domínio do monopólio da grande verdade. Bárbaros são aqueles, somos nós, os poucos que tentamos respirar hoje, não para invadir nada, mas para fugir das prisões de oligopólios mentirosos da verdade única. Oxalá, em breve, sejamos muitos.