Herói da Lava Jato, Sergio Moro atira em um governo não corrupto para tentar virar o herói da República

Ex-juiz poderia sobreviver como mártir anticorrupção, mas, com seu silêncio e um discurso calculado, esconde o heroísmo do passado devido a um oportunismo do presente

  • Por Adrilles Jorge
  • 13/11/2021 10h00
Dida Sampaio/Estadão Conteúdo - 10/11/2021O ex-juiz federal Sergio Moro se filiou ao Podemos e deve disputar as eleições de 2022

Sergio Moro é um herói ambíguo. Dizem que Santa Joana D’arc era meio doida. E que a loucura era a causa de seu heroísmo. Já Moro é um herói que peca por excesso de cálculo, de razão calculada. Herói da Lava Jato, juiz meticuloso, usou dos instrumentos da delação premiada e da prisão em segunda instância para botar no xilindró quase 200 corruptos graúdos, entre eles Lula, um ex-presidente da República. Mexeu com toda a oligarquia do establishment corrupto que manda no país há décadas. A oligarquia reagiu e soltou o petista — e outros tantos bandidos —, destruiu a Lava Jato e jogou seu nome na lama.

A oligarquia tem representante: o STF. Moro ficou quietinho quando massacrado pelo Supremo, talvez por medo de ser preso ou por cálculo futuro de uma possível candidatura à Presidência, na qual pudesse escorar seu discurso antiestablishment. Até agora, centrou, na sua posse inaugural de candidatura a sabe-se lá o quê, seus canhões contra o governo Bolsonaro, do qual fez parte. Comparou mensalão (mesada de dinheiro desviado de corrupção) a emenda parlamentar, recurso legítimo de governabilidade que bota verba em benefícios para região de deputado na forma de escolas, ambulâncias, hospitais etc. O governo do qual fez parte não tem nenhuma denúncia formal de corrupção que leve ao presidente. Moro sabe disso, mas o governo que não cometeu corrupção também foi leniente em relação ao combate à corrupção. Ao que tudo indica, para proteger o filho do presidente de denuncias passadas de rachadinha, prática usual — mas delituosa — de recolhimento de parte do salario de servidores em gabinetes de deputados.

O governo não corrupto cerceou a possibilidade ampla de combate à corrupção junto com o Judiciário, que privilegia uma oligarquia corrupta que quer destruir o governo não corrupto. Paradoxal. Política no Brasil é mais que paradoxal. Moro talvez não saiba disso. Como político, agiu como juiz que queria que tudo fosse certinho. Saiu atirando, acusando sem provas o governo de interferência indevida na Polícia Federal e possível corrupção futura. O Moro político tropeçou na própria vaidade de juiz herói que foi, achando que ele destruiria o governo do qual fez parte. Angariou ódio de bolsonaristas e petistas insanos, que o creem um juiz parcial. Parcialidade esta alcunhada e tatuada em sua testa pelo STF, o representante máximo da oligarquia obtusa que comanda o país.

Moro, por ora, candidato a presidente, é um homem perdido, de boas intenções, que agora faz um jogo político do qual não entende, em nome da boa intenção de sua eleição. Acha que, por oportunismo político, poderá se alçar a herói político como presidente, como herói que foi como juiz. Para isso, mira no governo não corrupto, a fim de lhe tirar votos. Política é o que Maquiavel diz ter sido, não o que São Francisco de Assis gostaria que fosse. Mas Moro, por suposta esperteza, mira na não corrupção do governo do qual fez parte e esquece de atirar no imoralmente corrupto STF, que jogou corruptos condenados na liberdade e prende pessoas sem processo por criticarem seu autoritarismo. Moro ficou em silêncio quando pessoas eram presas e arrastadas nas ruas por tiranos isolacionistas que queriam lucrar com a ruína das pessoas. Enquanto fingiam que salvavam vidas, empurravam um monte para a miséria.

Moro silenciou sobre o tribunal que o massacrou e berra sobre o governo não corrupto que o acolheu. Fala pouco sobre Lula, o maior corrupto vivo da nação que institucionalizou a corrupção estatal no Brasil. Faz tudo com método. Método, até agora, ruim. Por cálculo político. Cálculo ruim. Para pegar fatia dos votos dos cansados com as diatribes de Bolsonaro e os escandalizados com a corrupção moral e financeira de Lula, teria que mirar na oligarquia e seu representante máximo: o STF. Não o faz. Silencia. Por medo e cálculo. Mas que tipo de herói se silencia por cálculo político? Algum método suicida faz com que o herói ganhe a aura de martirização. Moro poderia sobreviver, ainda que derrotado, como herói e mártir anticorrupção. Mas se arrisca a se tornar um herói que, por silencio e discurso calculado, esconde seu heroísmo do passado por um oportunismo do presente. Moro, o ambíguo.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.