Isolacionismo nunca foi ciência; um rebanho mimado e medroso é facilmente controlado

Por que agora a recomendação sensata e póstuma do isolamento vertical? Medo e covardia são as primeiras respostas; medo excessivo de morte mata

  • Por Adrilles Jorge
  • 10/10/2020 10h00
Aloísio Maurício/Estadão ConteúdoOMS recomendou o isolamento social para conter o avanço da Covid-19

A realidade factual é sempre clara. A interpretação subjetiva é uma versão do real. A ciência não se importa com interpretações subjetivas do real. O problema é quando a interpretação subjetiva do real se apropria da ciência. O que claramente ocorreu no combate isolacionista à Covid 19. Seis mil cientistas de Stanford e Harvard agora afirmam que a solução para o vírus chinês é o povo jovem e saudável circular. E preservar idosos e doentes crônicos. Para atingir a imunidade de rebanho, o vírus tem que se espalhar cada vez mais rápido. Basicamente, o isolamento vertical, o distanciamento racional que propuseram uns poucos que foram prontamente apedrejados em nome da ”ciência”. Ciência agora que reavalia discretamente suas conclusões apressadas. Ciência, é bom lembrar, é um conjunto de hipóteses testadas ao longo do tempo que abrangem aspectos da realidade. A realidade científica apressada do isolacionismo sem método que condenou milhões à fome, desemprego e endoidamento nada teve de científico.

Basicamente, o que a ciência agora recomenda foi o que uma meia dúzia de pessoas minimamente sensatas, cientistas ou não, recomendaram desde o início: isolamento vertical, com circulação racional das pessoas. Preservando empregos, trabalho, renda, saúde psíquica, emocional, física e sustento das pessoas. Uma utopia isolar idosos e doentes? Uma insensibilidade isolar doentes e idosos? Partiu-se portanto para a utopia insensata e insensível de trancar ao mesmo tempo milhões de pessoas sem necessidade. O vírus se espalha de diferentes formas e chega em diferentes regiões com mais ou menos intensidade. Qualquer estudante de epidemiologia ou pessoa sensata sabe disto. A solução encontrada em contraste com a sensatez mais óbvia? Trancar tudo e todos, sobretudo o bom senso mínimo.

Por que agora a recomendação sensata e póstuma do isolamento vertical? Medo e covardia são as primeiras respostas. Medo excessivo de morte mata. O excesso de mimo da humanidade por décadas de avanços da ciência e medicina garantiram maior expectativa e qualidade de vida a quase todos. O avanço do capitalismo em democracias liberais melhorou a renda, diminuiu pobreza, diminuiu guerras, melhorou a vida de quase todo mundo. São dois bilhões de pessoas que saíram da linha da pobreza nos últimos trinta anos. Somos uma geração mimada, pois. Que ao primeiro sinal da possibilidade de risco, se esconde debaixo da cama porque alguém assim o comanda. Só que este mimo foi fatal para enfrentar um risco de maneira racional  e – verdadeiramente científica. A ultrassensibilidade do mimo contemporâneo só piorou a situação. Por pura covardia com método pseudocientífico.

A decisão do isolacionismo trancafiou bilhões de pessoas em suas casas, sem considerar o óbvio: que o vírus chegava antes , de maneira mais intensa, em grandes megalópoles que tinham mais contato com a China e a Itália, primeiros portos da pandemia. A ideia pseudocientífica foi trancar o mundo. Trancar empregos, trancar trabalho, trancar liberdade, trancar bom senso. Tudo em nome da ciência. De uma falsa ciência. Ora, ciência não se faz da noite para o dia. Vale repetir: ciência é um conjunto de hipóteses testadas ao longo do tempo. Nada se testou em relação ao vírus chinês. O que se sabia –  e se esqueceu provisoriamente, intencionalmente – é que toda pandemia tem começo, meio e fim, independente de isolacionismo. Algum achatamento de curva  pode ocorrer se isolando, mas também se achata a transmissão comunitária que origina a imunidade de rebanho. Imunidade alcançada pela Suécia. Imunidade – ao que tudo indica- prestes a ser alcançada por São Paulo, onde pessoas se aglomeram aos milhares, onde os números de mortos e infectados caem vertiginosamente. Ao contrário da Argentina toda trancada, onde os números de infectados e mortos explodem.

Nunca foi ciência. Foi pretensão intelectual, foi ultrassensibilidade demagógica e tentativa de controle. Um rebanho mimado e medroso é facilmente controlado. Governos socialistas como o da Argentina e da China sabem disto. Entidades suprapartidárias socialistóides como a incompetente e politizada OMS sabem disto. Por meses, a Argentina foi celebrada como modelo de isolamento como a Nova Zelândia, onde ninguém, nem o vírus, visita. Pois bem: o vírus chegou agora em solo argentino, depois de uma aventura patética de meses de isolamento profilático que nada preveniu e causou ruína econômica, ruína na vida de pessoas. Trancafiaram o bom senso em nome de pseudociência, em nome da ideopatização covarde em relação a uma doença. E continuam teimando no método, destruindo a vida de pessoas, a despeito da realidade. O especialistas destronados pela realidade preferem ter razão a salvar a vida de pessoas.

Tudo isto tem um fundo ideológico que contaminou o próprio discurso científico: o progressismo. O progressismo apela à ultrassensibilidade humana. O carinho exacerbado à proteção do corpo, à integralidade inviolável do coletivismo de grupos identitários controladores e controlados, onde tudo é ofensa: uma piada, um olhar, um flerte, uma verdade crua ou mesmo um vírus. Nada pode atacar a geração ultrassensível que quer viver para sempre e que deixa de viver e impede outros de viverem e arriscarem sua vida (toda vida tem um contingente de risco) em nome de seu apego desmesurado a uma vida narcísica, estática, que não se agita, que não enfrenta riscos, que se vitimiza todo o tempo, que se acovarda e que usa de elementos ideológicos para justificar até mesmo um argumento científico falso. E este sentimento progressista ultrassensível afeta inclusive a lógica cientifica. A mesma lógica que morre de medo de apontar origens sociais, circunstanciais na origem da sexualidade de um indivíduo para além da biologia, que morre de medo de dizer que uma pessoa miscigenada não pode ser classificada como branca opressora ou negra oprimida, que morre de medo de dizer que uma atleta trans é um homem biológico que tem vantagens óbvias numa competição, que morre de medo de dizer não há controle absoluto para um vírus que não obedece métodos de reclusão simplória e medieval. Um vírus não é domesticável pelo ressentimento e ultrassensibilidade de ofendidos profissionais.

A covardia resultou em milhões de infectados em casa, com maior ou menor sorte. Em Nova York, foram 85% de infectados em casa que eventualmente saíam para comer, por exemplo, e se contaminavam. Ninguém fica isolado em um banheiro por meses, por óbvio. Mas o óbvio se torna turvo para uma civilização politicamente correta que fecha os olhos para a realidade visível. A pseudociência claustrofóbica de combate ao vírus invisível não enxergou a realidade mais óbvia e condenou milhões à pobreza, miséria, fome, perda de saúde psíquica. E esta pseudociência claustrofóbica, cega e pretensiosa é produto direto da cegueira de uma geração ultrassensível e ressentida e mimada que não só não enxerga como tem medo de ver e enfrentar a realidade. Ninguém jamais admitirá o erro isolacionista, claro. Intelectuais, jornalistas, entidades suprapartidárias, aglomerados de comunicação jamais admitirão que condenaram o mundo a um sacrifício inútil e que piorou a situação com um remédio mais amargo que a doença. Numa sociedade onde os olhos negam a realidade, o mais fácil é subverter a realidade em nome de seu negacionismo.