‘Você não sangra’: Quem interdita o debate com lugar de fala ignora que não existe absorvente grátis

O item feminino doado pelo Estado pode gerar menos papel higiênico na casa da menina pobre que o recebeu, mas um grupo que deseja falar na marra por todas as mulheres vai te dizer o contrário

  • Por Adrilles Jorge
  • 16/10/2021 10h00
Cris Faga/Estadão Conteúdo - 14/10/2021Sâmia Bomfim, deputada federal pelo Psol, participa de manifestação contra Bolsonaro promovida por coletivos feministas

“Você não é mulher, você não sangra, você não é negro, você não é gay, você não é vesgo, você não é deficiente, você não é pobre. Você não sente a nossa dor, você não pode opinar.” O dito lugar de fala é o maior entrave de qualquer debate sério que possa ser feito sobre qualquer coisa. Interdita qualquer argumento a pretexto de dizer que, se você não passa pelo problema de quem passa pelo problema, não pode dar pitaco. Como dizer que só negros podem falar sobre racismo, mulheres sobre machismo, gays sobre homofobia. Em geral, são representantes políticos destes grupos que falam por toda a imensa maioria. Nunca o grupo de mulheres, gays ou negros em si. Pois bem: o último desta leva foi sobre o sangramento da menstruação. Pobreza menstrual de mulheres. Que só poderia, claro, ser discutido por mulheres pobres, mas foi discutido por homens e mulheres não pobres que interditaram o debate com quem não sangra. Sem sangrar, entramos no debate. Vamos lá! O presidente vetou um projeto que visava distribuir absorventes a mulheres carentes. O argumento de que a fonte de custeio poderia pesar sobre o orçamento não adiantou. “Tem dinheiro para tudo, inclusive para fundo partidário bilionário.” De fato. Mas a fonte da corrupção moral não compensa um erro populista. Um pacote de 30 absorventes chega a custar R$ 7. Dá para dois ciclos menstruais. Um programa assistencial como o Bolsa Família dá algumas centenas de reais para famílias carentes. É pouco. Muito pouco. Mas os R$ 3 mensais que dão para um ciclo menstrual mensal deveria estar incutido no pacote assistencial de dinheiro vivo. Simples assim, não? Não, claro.

“Você não sangra, você não tem vagina”, responde o lugar de fala à conta matemática. A lógica vai além: num sistema capitalista, deveriam todos ter os meios para arcar com a própria sobrevivência. Emprego, trabalho, renda. Claro, ninguém razoável é estupidamente insensível para negar miséria e exclusão social num país como o Brasil e não querer arcar com alguma assistência básica à população miserável. Mas se distribui-se absorventes, por que não distribuir comida, roupas, escovas de dentes, papel higiênico, sabonete e outras centenas de produtos essenciais à saúde pública? Se tem gente que não sangra, todos defecam e deveriam ter papel higiênico de graça, por esta lógica distributiva geral, não? Já tentaram: fizeram uma coisa chamada socialismo. E descobriu-se que, neste sistema, se socializa a pobreza e a opressão do Estado, que distribui migalhas e sobras de autoritarismo à população. Uma economia de mercado que, ainda que falha e insuficiente, pode distribuir algum dinheiro (como já faz com o Bolsa Família e auxílio emergencial na pandemia), além da oferta maior de empregos, é muito mais eficiente que um sistema socializante amplo que sufoca as potencialidades do indivíduo ganhar dinheiro e distribuir trabalho por meio de seu livre empreendedorismo. Até mesmo governos petistas como os de Haddad e Dilma, intuitivamente, sacaram que distribuir absorventes ou tudo mais não funcionava neste sentido. Até eles perceberam que populismo social tem limites quando são eles os populistas que tomam conta das contas públicas.

A emoção deslocada num debate público só gera mais problema. Sentimentalismo passional calcado em princípio de lugar de fala só gera mais problema. Gerar uma distribuição gratuita de absorventes, ou sabonete, ou escova de dentes, ou comida, ou qualquer coisa, gera uma logística paga e mão de obra. Coisa que triplicaria os custos do Estado. Aliás, dinheiro do Estado, não. Dinheiro seu, pagador de impostos. E quanto mais imposto, menos capacidade de empreendedorismo e mais força de um Estado inchado que suga muito do povo, oferece migalhas em troca e tolhe a livre iniciativa das pessoas trabalharem e ganharem dinheiro por conta própria. E gerarem mais trabalho para pessoas carentes comprarem absorvente e comida. Um simples absorvente distribuído, baseado no populismo social a custo de R$ 0,40, pode ser o começo deste entrave, que piora a vida de todos. Sim, no fim das contas, um absorvente doado pelo Estado pode gerar menos papel higiênico na casa da menina pobre que o recebeu. A misericórdia de um indivíduo é muito mais eficiente que o socialismo. A misericórdia com lógica gera trabalho e renda. A falsa misericórdia de Estado que dá esmola com dinheiro público piora a pobreza.

Mas não adianta: nenhuma lógica é capaz de destruir o populismo sócio sentimental de quem te diz que “você não sangra”. Mulheres que sangram e têm lógica não vão responder assim e não farão teu cérebro sangrar de tristeza. Quem, em geral, fala pelo lugar de fala de mulheres que sangram, de negros, gays etc são grupos que se intitulam representantes de classes desfavorecidas, nunca as próprias classes desfavorecidas, lembre -se. Dar o pão a quem tem fome tem uma lógica de misericórdia, sim, assim como dar um absorvente a quem sangra. Ou mesmo, menos mal, dar dinheiro direto na mão de quem passa por necessidade urgente. Mas tirar a capacidade de quem pode e quer comprar o pão e o absorvente com o próprio trabalho, onerando e inchando o Estado com logísticas de distribuição de produtos, aumentando imposto, congelando pobreza, é coisa do diabo, que amassa no chão o pão com o sangue menstrual que ele não tem. Lugar de fala é argumento de satanás.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.