Amapá está abandonado à própria sorte; é o retrato mais perfeito do Brasil

Governo estadual decretou estado de emergência, prevendo instalação de geradores e distribuição de combustíveis, mas tudo isso se arrasta; tudo muito devagar, quase parando

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 17/11/2020 11h57
MAKSUEL MARTINS/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDOMoradores de Macapá protestam contra a falta de energia

Passada a festa democrática da eleição, como costumam dizer, vamos voltar à nossa realidade mais crua. Não há rosas quando o mar está bravo. E por aqui, o mar está quase sempre agitado. Utilizo essa pequena abertura para dizer que Brasil verdadeiro é o Amapá. Não é a avenida Paulista, em São Paulo. O Brasil é o Amapá. E a capital do Amapá é Brasília, que significa o caos. O que aconteceu e ainda acontece no Estado do Amapá chega a ser inacreditável. Mas no Brasil, infelizmente, tantas coisas são inacreditáveis. Coisas assim não podem ocorrer num país que se deseja sério. Mas o Brasil é isso, o Amapá, com vários dias sem luz, sem água, hospitais e sem nada. Abandonado à própria sorte. É o retrato mais perfeito do Brasil. Como se o Amapá não existisse nem estivesse no mapa do país. O descaso foi revoltante.

Desde o episódio que deixou o Amapá sem energia elétrica, a população tem vivido de maneira precária. O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, prometeu que os problemas seriam solucionados rapidamente. Mas as soluções se arrastam, envolvendo a população num estado de insegurança e protestos todos os dias, fechando avenidas, queimando móveis nas ruas. Casas foram e ainda são invadidas, os ladrões levam tudo e a violência cresce cada vez mais. Muitas pessoas são assaltadas nas ruas, na frente de todo mundo. Uma população indefesa. A polícia enfrenta ainda os protestos com balas de borracha. Na periferia da capital, Macapá, os protestos continuam, especialmente durante a madrugada. O governo do Estado pôs a polícia em cima, sem dó nem piedade.

O grave problema do Amapá praticamente desapareceu dos jornais. Quase não se comenta mais. E isso não tem explicação. A Prefeitura de Macapá decretou estado de emergência válido por 60 dias. Informou à população que vai amenizar os problemas causados pela falta de energia. Disponibilizou carros-pipa, que fazem rodízio para distribuição de água potável. E o governo do Estado decretou estado de emergência, prevendo instalação de geradores e distribuição de combustíveis. Mas tudo isso se arrasta. Tudo muito devagar, quase parando. O Brasil é o Amapá. O problema começou com a explosão de uma subestação em Macapá, deixando 13 dos 16 municípios do Amapá sem energia elétrica, prejudicando diretamente cerca de 800 mil pessoas. Daí para frente, houve o que sempre acontece nessas ocasiões: falta de água, desabastecimento, encarecimento dos alimentos e aglomerações em todo lugar.

O líder de oposição no Senado, Randolfe Rodrigues, provocou o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Amapá, pedindo uma apuração séria sobre o motivo do blecaute. O senador observa que os prejuízos são incontáveis e pergunta: “Quem vai pagar tudo isso?”. Senador, ninguém vai pagar por nada. Vai tudo ficar por isso mesmo, como é de costume nas cenas brasileiras. Infelizmente, é assim que funciona. No último domingo, 15, não houve eleição na capital Macapá, por falta de condições materiais e técnicas para sua realização. Do jeito que está não dá mais. Descobriu-se, somente agora, que a explosão da subestação não foi provocada por um raio, e sim por falta de manutenção, levando esse caos a um Estado do Norte brasileiro, onde cada um zela por si mesmo. É mesmo o abandono. Uma população que vive em estado de penúria envolvendo milhares de pessoas que não sabem a quem pedir ajuda, já que o Amapá não existe. O Brasil é um país que vive de conversa. E o Amapá vai ainda por algum tempo viver esse caos. As coisas neste país são assim. Somente isso. A própria população acaba por aceitar seus infortúnios. Como se tudo fosse normal. E tudo vai mesmo parecendo normal. O Brasil é o Amapá, não é a avenida Paulista.