Assim como hospitais, profissionais da saúde também estão à beira de um colapso

Pesquisa mostra dor, sofrimento e tristeza de médicos, enfermeiros e outros trabalhadores que estão na linha de frente da luta contra a Covid-19

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 23/03/2021 12h19 - Atualizado em 23/03/2021 12h23
Mister Shadow/Estadão Conteúdo - 08/03/2021Pesquisa da Fiocruz mostra que profissionais da saúde da linha de frente do combate à Covid-19 estão exaustos

A pandemia, infelizmente, continua sua trajetória devastadora. Agora, há a ameaça de faltar medicamentos. E as vozes contrárias às restrições para barrar a doença continuam cada vez mais ferozes, mas não apresentam nenhuma solução. Não bastasse essas sombras que nos envolvem, agora os profissionais da saúde chegaram ao seu limite no combate do coronavírus. Além da Covid-19, têm de enfrentar o descaso do governo federal, que parece torcer a favor do vírus. O mundo desses profissionais é de escuridão, numa luta que muitas vezes eles dão como perdida, certamente para o regozijo de um governo ausente. Mais de 295 mil mortos ainda não bastaram. Certamente precisa morrer o país inteiro. Mas o Brasil já morreu faz tempo. Este tipo de comentário desagrada os aliados do vírus. 

Estudo da Fiocruz revela que 70% dos profissionais do setor desaprovam a conduta do governo na pandemia. Seria melhor que o presidente abandonasse essa questão de vez. Que pelo menos calasse a boca. Ajudaria mais. Médicos, enfermeiros e técnicos da saúde chegaram aonde podiam chegar, ao esgotamento, com a perda de pacientes, amigos, colegas de trabalho e parentes. A pesquisa Condições de Trabalho dos Profissionais da Saúde no Contexto da Covid-19, realizada em todo o país, foi divulgada no domingo, 21, e revelou as transformações e a durezas enfrentadas por esses trabalhadores nos últimos 12 meses, quando surgiram a exaustão, os problemas de ordem psíquica e o emocional destruído. A pandemia mudou completamente o modo de vida de 95%  desses profissionais. A maioria trabalha mais de 40 horas por semana e 45% necessitam de outro emprego para sobreviver.

A coordenadora do estudo da Fiocruz, Maria Helena Machado, diz que a atuação dos profissionais da saúde é marcada principalmente pela dor, sofrimento e tristeza, com fortes sinais de esgotamento físico e mental. O dia a dia é acompanhado pelo medo de contaminação e da morte iminente. Não à toa, 70% desses profissionais reprovam o comportamento do governo federal na pandemia. Uma conduta inconsistente, sem qualquer esclarecimento à população. Revela também que 90% dos profissionais entrevistados se deparam com pacientes que mal sabem do vírus e são envolvidos por notícias falsas, como a promoção de remédios inúteis contra a doença. Fora outros   problema. Por exemplo, 64% dos profissionais tiveram que improvisar equipamentos para trabalhar.

A pesquisa ouviu 25 mil trabalhadores que apontaram os principais problemas surgidos na pandemia: perturbações de sono, irritabilidade, crises de choro, dificuldade de concentração e perda de satisfação na carreira. A exaustão atingiu principalmente aqueles que trabalham na linha de frente, em contato direto com o doente. E surgiu um tribulação inesperada: esses profissionais da saúde passaram a ser discriminados por seus vizinhos. As pessoas se sentem em perigo porque acreditam que eles transportam o vírus. Essa questão levou grande parte dos profissionais ao isolamento social, até mesmo dentro da própria família.

Então estamos assim: começa a faltar remédios em várias regiões do país, faltam leitos em praticamente todos os hospitais brasileiros, as UTIs tornaram-se quase impossível e agora vai começar a faltar profissionais da saúde para atender aos doentes. Isso tudo é resultado de uma política irresponsável e negacionista daqueles que não acreditam em nada e até sabotam o trabalho de quem que tenta salvar vidas. Desde o início de tudo, quando o vírus surgiu, faltou-nos uma liderança capaz de conduzir os trabalhos de enfrentamento. Em vez disso, utilizou-se o descaso e até mesmo o deboche. Então a pandemia cresceu e invadiu o Brasil, que se negou a comprar vacinas quando estavam disponíveis simplesmente porque as autoridades são declaradamente contra a vacinação. Chegam a zombar. Na falta de doses, o Brasil caminha aos tropeços e hoje é o país onde ocorrem o maior número de mortes todos os dias. Infelizmente, não há muito a esperar diante de um quadro completamente politizado.

A doença e a morte tornaram-se uma disputa política. As medidas de restrição e de isolamento social, no Brasil, estão sendo contestadas no Supremo Tribunal Federal pelo presidente da República. Afinal, o que deseja o presidente? O que se passa na cabeça dele diante da pandemia, com essa conduta que favorece a disseminação da Covid-19 em tudo. Os profissionais da saúde chegaram ao limite suportável diante de tanto sofrimento e um número de mortes que assusta o mundo. Nos países civilizado, o mal foi enfrentado com sensatez, não por mentes neuróticas que parecem preferir a pilha de cadáveres. É mesmo um cenário desolador. No Brasil, em vez de combatentes, a pandemia tem um exército que a defende e a deixa seguir destruindo vidas todos os dias. Sinceramente, não dá para compreender a loucura de muita gente que pensa mandar em tudo.