Bolsonaro e Pacheco tornaram-se desafetos; na foto não parece, mas a ordem é para manter distância

Depois da MP das fake news e do impeachment de Moraes, presidente começa a ver senador com desconfiança e acha que ele é um nome perigoso para o avanço dos planos do governo

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 08/10/2021 13h07
Marcos Corrêa/PRRodrigo Pacheco, que foi eleito no Senado com apoio de Bolsonaro, tem tomado decisões que divergem das posições do presidente

Azedou de vez o relacionamento entre o presidente Bolsonaro e o presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco (DEM). Todo mundo sabe que Pacheco chegou ao cargo que ocupa com a ajuda de Bolsonaro que, lógico, contava com uma contrapartida, uma ajudazinha de vez em quando em questões ligadas ao governo que passam pelo Senado. Mas não está sendo assim. E Bolsonaro está p. da vida. Agora o presidente começa a ver Pacheco com muita desconfiança. Já vê em Pacheco um nome perigoso para o avanço dos planos do governo. Bolsonaro tem dito aos amigos mais próximos, aqueles dos gabinetes paralelos, que Rodrigo Pacheco está seduzido pela ideia de se transformar na terceira via nas eleições presidenciais. Por isso, Pacheco deixou de se interessar pelas pautas do governo e dar prioridade a ministros. Em outras palavras: Pacheco mudou o comportamento e não quer muita conversa com ninguém.

Vários ministros têm reclamado a Bolsonaro que estão se aguentando antes de explodir. A questão está bastante tensa. Para piorar, Bolsonaro não engoliu ainda as duas derrotas recentes que sofreu por decisão de Rodrigo Pacheco. Ele devolveu a Bolsonaro a Medida Provisória das fake news e também rejeitou o pedido de impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes. Bolsonaro finge que esquece, mas não esquece. Longe dos jornalistas, Pacheco tem se reunido com líderes partidários para discutir a eleição presidencial de 2022, o que tem acontecido, também, com empresários e investidores do mercado financeiro. Bolsonaro está engolindo todos esses desaforos. O que pareceu um duro golpe foi a devolução a Medida Provisória enviada ao Congresso que dificultava o combate às fake news. Bolsonaro não esquece. Ele guarda e um dia devolve. Os parlamentares sequer analisaram o mérito da MP. A proposta do governo alterava o Marco Civil da Internet, restringindo a possibilidade de moderação de conteúdo pelas plataformas.

Antes de Rodrigo Pacheco devolver a MP ao governo, a ministra do STF Rosa Weber já havia derrubado a medida de Bolsonaro por meio de uma liminar. Pareceu um golpe, mas não foi. Deu essa impressão, mas tudo não passou de um jogo de cena. Tanto que Bolsonaro já apresentou a mesma MP, só que em forma de projeto de lei. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), se mostrou satisfeito, fazendo o jogo, dizendo que o projeto de lei é o procedimento correto. Como sempre, Lira afaga o governo com agrados duvidosos. Para ele, o país necessita de uma lei que dê conforto a todo mundo. Já Rodrigo Pacheco, meio da contramão, afirma que o projeto de lei representa a via própria para tratar dessa questão. Adianta ser preciso proteger as famílias desse mal que são as notícias falsas e o mau uso da internet. Está tudo bem. Mas só parece. Bolsonaro, na verdade, quer uma internet livre para se dizer o que bem entender, insultos, ofensas, mentiras, notícias falsas sobre adversários políticos. Tudo em nome do que ele chama liberdade de expressão e pensamento. O presidente do Senado Rodrigo Pacheco não pensa bem assim. Os ex-amigos tornaram-se desafetos. Pode não parecer na fotografia, mas a ordem é manter distância. Inimigos cordiais. Afinal, Bolsonaro é o presidente da República. E o presidente da República quer toda a liberdade para sua tropa digital. Basta saber se agora o projeto de lei passa. Numa casa onde quase todo mundo tem o rabo preso, é difícil saber o que vai acontecer. Uma coisa é certa: Bolsonaro não esquece, chega o dia em que ele dá o troco.