Brasil não pode perder tanto tempo com pautas desnecessárias

Debate sobre urna eletrônica e voto impresso é uma das principais razões para a atual crise institucional entre o governo e o Judiciário, que já fechou questão sobre tudo que for contra Bolsonaro

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 10/08/2021 14h23
MOURÃO PANDA/O FOTOGRÁFICO/ESTADÃO CONTEÚDOO sistema da urna eletrônica tem sido questionado por Bolsonaro e seus apoiadores

Será que essa história do voto impresso termina hoje? Se terminar, o que vamos inventar a seguir para passar o tempo? O assunto que já aborreceu todo mundo, pela forma incivilizada com que tem sido tratado, na discussão agressiva e até ameaça. A urna eletrônica, o voto impresso, são a nova neura do presidente Jair Bolsonaro que parece ter se viciado nessa conversa, mesmo diante de manifestações contrárias em todo lugar. O que ele inventará depois? A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que recria o voto impresso no Brasil será votada nesta terça-feira, 10, na Câmara dos Deputados. Bolsonaro está ciente de uma derrota humilhante, mas ele não para de falar. Repetiu muitas vezes que sem o voto impresso não haveria eleições em 2022. E ainda repete essa ameaça. Ou o presidente está com o golpe pronto ou necessita acalmar ímpetos que não têm uma explicação razoável, senão o autoritarismo.

Depois de derrotado numa Comissão Especial por 23 a 11, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), decidiu levar a discussão para o plenário, onde as chances são menores. A oposição pediu uma votação urgente para acabar logo com isso. O país não pode perder tanto tempo com inutilidades. Pelo que se sabe, o governo deverá sofrer uma derrota acachapante. Se for assim, o que fará Bolsonaro? Quinze dos 24 partidos da Câmara já se declararam contrários ao voto impresso. São 330 deputados. Para tirar esse assunto das discussões brasileiras são necessários 308 votos. Quer dizer: não tem chance. Apenas duas bancadas confirmaram apoio total à proposta de Bolsonaro, somando 86 parlamentares, de acordo com levantamento feito pelo jornal O Globo. Essa questão tem de sumir do mapa. É uma das principais razões para a atual crise institucional entre o governo e o Judiciário, que já fechou questão sobre tudo que for contra o governo. Não vai ter mais contemporização. Tem que ser no insulto? Então que seja no insulto.

Existe um pequeno movimento na Câmara de alguns deputados não acatarem a determinação de seus partidos. Mesmo assim, as chances de aprovação são mínimas. O PP, partido do já chamado primeiro-ministro do governo, Ciro Nogueira, liberou a bancada. Cada um vota como quiser. Levar a votação para o plenário foi uma decisão incomum do presidente da Câmara, Arthur Lira, já que qualquer decisão contrária da Comissão Especial sempre vai para o arquivo e ponto final. Gilberto Kassab, o que manda no PSD, afirma que todos os países do mundo discutem ações para combater a Covid-19 e o Brasil está mais preocupado com a urna eletrônica, colocada como prioridade pelo presidente Bolsonaro. Para Kassab, o país faz questão de caminhar na contramão. Baleia Rossi, presidente do MDB, observa que precisamos combater a fake news de que os votos não são auditáveis.

No final de tudo, até os partidos aliados do governo estão contra a proposta do voto impresso. Já o major Vitor Hugo, do PSL, é um dos líderes que orientam seus parlamentares a votar a favor da emenda. Digamos que o voto impresso seja aprovado. Se for, seguirá para o Senado, onde a maioria é contra. Com exceção do PSB, todas as agremiações de esquerda já firmaram posição contra a proposta. Dizem que não existe razão para mexer com isso agora, senão para tumultuar o processo. Neste domingo, 8, o presidente do Superior Tribunal Eleitoral, Luís Roberto Barroso, recorreu ao romance “O Alienista”, de Machado de Assis, para explicar a conduta e o perfil de Bolsonaro. O personagem Doutor Simão Bacamarte, o alienista, resolveu construir um manicômio onde internou praticamente a cidade inteira. No fim, sabe-se que o louco era ele, não os outros que internou. No Brasil de hoje, a ficção de Machado de Assis passou a ser uma realidade doentia.