Brasil parece ter uma vocação inabalável para coisas ruins

Vários países do mundo já estão aplicando a vacina infantil para evitar o pior futuramente, já que os casos da Covid em crianças se multiplicam, mas nós estamos atrasados novamente

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 07/01/2022 14h15
EFE/EPA/FEHIM DEMIR Vacinação de crianças de 5 a 11 anos deve começar ainda neste mês

Não dá para compreender. E coisas assim causam profunda tristeza e desânimo frente a um país que parece fazer questão de seguir na contramão, como quer seu presidente. Como se fosse ele o dono de todas as verdades. Quando se pensava que finalmente tudo estava resolvido em relação à vacinação de crianças de 5 a 11 anos, nesta quinta-feira, 6, o presidente Jair Bolsonaro fez declarações contra a vacina que assustam e levam o país a um emaranhado de desinformações que não pode existir em qualquer país civilizado do mundo. São palavras contundentes de quem torce contra a vacina, revelando um desejo doentio de sempre distorcer a verdade ao seu bel prazer. 

Vários países do mundo já estão aplicando a vacina infantil para evitar o pior futuramente, já que os casos da Covid em crianças se multiplicam. O Brasil está atrasado novamente, como ocorreu na época em que surgiu o coronavírus. Qualquer cidadão brasileiro com consciência de cidadão se envergonha da conduta do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que é ou foi médico um dia. O governo brasileiro faz de tudo para prejudicar a vacinação e qualquer outra medida contra a Covid. Convém lembrar que também nesta quinta-feira, 6, um grupo de médicos enviou ofício ao Conselho Federal de Medicina pedindo a abertura de processo ético contra Queiroga, com uma lista de infrações éticas graves no exercício da Medicina no Ministério da Saúde. O Brasil vive de coisas assim, todos os dias. Mas todos os dias mesmo. O país parece ter uma vocação inabalável para coisas ruins. 

Falando à Rádio Nova, de Recife, Bolsonaro criticou duramente a autorização de imunizantes contra a Covid para as crianças, pondo em dúvida a idoneidade da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão de prestígio internacional. Bolsonaro perguntou: “Qual é o interesse das pessoas taradas por vacina?”. Bolsonaro afirmou que os pais das crianças não devem se deixar levar pela “propaganda” da vacina. Disse que desconhece casos de óbitos causados pela doença nessa faixa etária, sem dizer que os dados a esse respeito foram fornecidos pelo próprio governo. O presidente também criticou mais uma vez a Anvisa pela decisão de aprovar a vacina infantil. Ocorre que a medida foi referendada pelo seu próprio governo, na quarta-feira, 5, quando o ministro, 20 dias depois da Anvisa aprovar a vacina, comunicou que a imunização deve começar na semana que vem. Deve. O anúncio do ministro Marcelo Queiroga foi feito num clima que demonstrava má vontade em relação ao assunto. Só não notou isso quem não prestou atenção. Desta vez as declarações de Bolsonaro não eram esperadas por ninguém, embora vivamos sempre no fio da navalha. Por isso, grande parte dos parlamentares do Centrão, aliado do governo, condenou as declarações do presidente, dizendo que coisas assim só criam desinformação, deixando a população sem saber o que fazer. Pelo que se viu nesta quinta-feira, particularmente, o Centrão começa a temer os efeitos dessas manifestações de Bolsonaro sobre a vacina nas eleições de outubro.

Dizendo que a decisão da Anvisa foi lamentável, Bolsonaro comunicou mais uma vez que não vai vacinar sua filha de 11 anos. É bom lembrar que a Secretária Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 (Secovid), do Ministério da Saúde, Rosana Leite de Melo, já afirmou que a vacina para crianças não teve nenhuma preocupação séria de segurança identificada nos testes clínicos. Bolsonaro quer saber quais são os interesses das pessoas taradas por vacina e quais são, também, os interesses da Anvisa. “O que está por trás disso aí?”, perguntou o presidente, acrescentando que não tem conhecimento de morte de crianças pela doença. Certamente o presidente não sabe que seu governo informou a imprensa que, em 2020, a Covid adoeceu exatamente 2.928 crianças, das quais 156 morreram. E em 2021, foram registrados 3.185 casos nessa faixa etária, com a morte de 145 crianças. Somando os dois anos, são 6.163 casos de Covid em crianças, com 301 mortes desde o início da pandemia. Mas entidades particulares de medicina, que nada têm a ver com o governo, asseguram que esse número é bem maior. Ao ser informado sobre isso, Bolsonaro disse que essas mortes de crianças certamente ocorreram por outra razão. O presidente desmente os dados fornecidos pelo seu próprio governo. O que vale é sua palavra e ponto final.

Diante disso, a população também se vê no direito de perguntar o que o presidente pretende com essa conduta. O que há por trás disso? Esse é o cenário brasileiro, com um governo que se desgasta cada vez mais. O que fazer num país assim, quando o próprio presidente da República faz declarações para desacreditar uma vacina para a infância, deixando os pais ao meio de todo tipo de desinformação? Coisas assim não acontecem em outros países. Não acontecem mesmo. As autoridades desses países fazem questão de estar presentes nessa luta que é de todos. No Brasil nunca foi assim desde o início de tudo. Na verdade, desde o início, o governo se colocou contra tudo, sendo que o presidente chegou a dizer que somos uma “pátria de maricas” pelo medo que a população, com razão, sente da pandemia. Ninguém deseja ficar doente e sempre espera atitudes decisivas do governo no enfrentamento ao coronavírus. Mas isso não existe no Brasil. E assim o país vai continuar se arrastando nessa mediocridade de cabeças vazias de qualquer sentimento de humanidade. E de respeito também.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.