Centenas de árvores estão doentes em São Paulo, e a prefeitura sabe, mas nada faz

Prefeitura de São Paulo prefere deixar a árvore cair em cima das casas, automóveis, nas ruas e depois retirá-las do local; assim, o atendimento passa a ser algo pontual, não serviço de prevenção à tragédia

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 03/12/2020 12h59
Letícia Santini/Reportagem Jovem PanQueda de árvore na Vila Mariana, em São Paulo, matou uma mulher de 45 anos

As árvores da cidade de São Paulo estão caindo. Estão morrendo. Exatamente no mês em que termina a primavera. As árvores da cidade, a maior parte com mais de 50 anos, estão doentes. A Prefeitura Municipal de São Paulo trata o problema das árvores de São Paulo com descaso e incompetência. Pedir uma poda e ser atendido é como ganhar na loteria. Ser atendido num pedido de poda é praticamente impossível. Na verdade, a prefeitura paulistana não dispõe de um serviço que possa atender a cidade nesse setor. E as árvores vão morrendo. E quando morre uma árvore que cai, quase sempre ocorre junto uma tragédia. Como a de terça-feira, 1º: uma grande árvore caiu sobre um carro dirigido por uma mulher, que morreu na hora. Salvaram-se seu marido e os dois filhos pequenos. Uma grande tristeza. Como evitar tragédias assim? Acredito que esse problema não tem solução. A Prefeitura de São Paulo não dispõe de um serviço à altura para lidar com um problema dessa natureza. A cidade de São Paulo tem, atualmente, cerca de 650 mil árvores, a maioria na parte central, em vias importantes de trânsito. As árvores de São Paulo não têm a atenção que merecem. Repito: a Prefeitura não tem condições para isso. É mais fácil deixar a árvore cair em cima das casas, automóveis, nas ruas e depois retirá-las do local. É muito mais fácil. Dessa maneira, o atendimento passa a ser algo pontual. Não serviço de prevenção à tragédia.

Centenas e centenas de árvores estão doentes na cidade. E a prefeitura sabe disso. Nada faz. Ou não consegue fazer. Árvores que precisam ser sacrificadas ficam no mesmo lugar até desabar, especialmente em dias de chuva, quando o tronco, por mais forte que seja, não suporta o peso das folhas molhadas que há muito necessitavam de uma poda. Mas quem consegue ser atendido na prefeitura em relação aos problemas de poda de árvores? É quase impossível. A poda só será feita se houver alguma indicação de alguém importante ligado à própria Prefeitura de São Paulo. Do contrário, os pedidos de podas, centenas, vão se empilhando sem que nada seja feito. E mais: há podas realizadas pela prefeitura que significam o assassinato da árvore, de tão malfeitas. Uma poda feita de qualquer jeito, por funcionários que nada entendem de árvores, acompanhados por um engenheiro que quer ir embora logo. A verdade é essa. Você solicita a poda de uma árvore e espera, espera, espera, espera meses, e o serviço quase nunca é feito.

Agora, se você resolver fazer a poda, por sua conta, a multa vem rápido. Como as pessoas, as árvores também envelhecem. E caem. E morrem. E quando isso acontece, quase sempre provoca mais uma tragédia numa cidade que vive de tragédias. As árvores da cidade estão em praças públicas, parques municipais, calçadas e canteiros centrais. A Secretaria do Verde e Meio Ambiente observa que a cidade tem mais de 650 mil árvores, mas é pouco, porque São Paulo é uma cidade árida, falta o verde. Por esse motivo, há dois anos, a prefeitura plantou na cidade exatamente 77.168 novas árvores, para tornar a cidade mais agradável, longe do que é hoje, um imenso espaço cheio de prédios de todos os tipos e tamanhos invadindo tudo. E não pode ser assim. A árvore faz parte da civilização de um povo. Mas parece que a árvore está sempre ligada a acontecimentos trágicos,  como aconteceu na terça-feira, 1º. E acidentes assim somam-se muitas dezenas todos os anos, especialmente nesta época. Infelizmente, a cidade deve se preparar para enfrentar esse problema que – repito – para mim não tem solução, porque a Prefeitura de São Paulo não dispõe de pessoal para essa finalidade.

Especialistas botânicos asseguram que a cidade necessita de um “inventário de árvores”, com toda a catalogação das espécies que existem. Informam que das árvores existentes em São Paulo, 90% são estrangeiras. Um número expressivo que causa muitos problemas, porque essas árvores, fora de seu habitat, acabam por adoecer, e como não recebem tratamento, morrem e caem. Em média, uma árvore tem uma vida sadia de 70 anos. E a maioria das árvores de São Paulo já tem essa idade. Boa parte são árvores doentes que não recebem tratamento nenhum. Fora isso, as árvores plantadas há tanto tempo foram invadidas pela rede elétrica, embora costuma-se dizer o contrário. E mais: infelizmente existem pessoas que odeiam árvores. Pessoas que, quando compram uma casa, por exemplo, a primeira providência é cortar a árvore plantada há anos na sua calçada. É difícil, mas essa pessoa acaba conseguindo, nem que seja na Justiça. Basta dizer que a árvore tira a claridade da casa. Basta isso. Sem dizer daqueles que cimentam a calçada e não deixam nem um centímetro de terra para a árvore. Parece que a árvore está plantada no cimento. É uma forma de matar uma árvore. Com mais de 650 mil árvores, apenas 11% desse total ocupam as ruas da cidade. E nem assim a prefeitura dá conta de cuidar. Basta uma chuva, um vento forte, e essas árvores vão cair. E vão cair e morrer muitas árvores, agora que começa a temporada das chuvas, bem no fim da primavera. Árvores abandonadas à própria sorte. No entanto, aqui não cabe poesia. Como problema não tem solução e falta um serviço sério para tratar dessa questão, o cidadão de São Paulo terá mesmo que assistir a novas tragédias já anunciadas. Não tem jeito. Infelizmente.