Chico Rodrigues deve voltar ao Senado, mas ninguém sabe se haverá festinha para o ‘senador da cueca’

Senador nunca se dispôs a falar sobre o assunto; ele apenas disse que o dinheiro era para pagar seus funcionários, mas não explicou por que guardou os R$ 33 mil justo na cueca

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 18/02/2021 10h21
Edilson Rodrigues/Agência SenadoSenador foi flagrado com R$ 33 mil na cueca durante ação da PF

O país está pegando fogo. Que nem um circo. O Brasil não tem um dia de paz. Vive de intrigas e provocações. Eles fingem que está tudo bem, em plena harmonia, e nós fingimos que acreditamos. E assim vamos levando. Mas a cada dia começa a ficar mais difícil. Está mesmo demais. Só falta acender o fósforo. Acompanhar o que acontece no país é enlouquecer. Parece um barco à deriva à espera do naufrágio. Fora isso, os meus leitores se lembram daquele senador que estava com a cueca cheia de dinheiro? Pois é, ele está de volta ao Senado da república brasileira. O afastamento do senador Chico Rodrigues, do DEM de Roraima, termina nesta quinta-feira, 18. A assessoria do senador da cueca cheia de dinheiro evitou dizer se ele vai reassumir o mandato. Os outros senadores se mostram indignados. Indignados? Não, indignados é demais. Mostram-se, digamos, constrangidos. Logo que foi flagrado pela Polícia Federal com R$ 33 mil escondidos na cueca, o senador Chico Rodrigues pediu licença do Senado. Os senadores dizem que até hoje esse caso não foi esclarecido. E Chico Rodrigues nunca se dispôs a falar sobre o assunto. No máximo, disse que o dinheiro na cueca era para pagar seus funcionários. Mas não explicou porque guardou o dinheiro bem ali, na cueca. É uma coisa esquisita.

O caso nunca chegou ao Conselho de Ética do Senado, que se reuniu pela última vez em setembro de 2019. Isso mesmo: setembro de 2019. Para que ter Conselho de Ética? O Senado devia ter ética, não conselho. A Polícia Federal chegou ao senador da cueca numa investigação sobre desvios de dinheiro público de Roraima. Chico Rodrigues, que era vice-líder do governo no Senado, negou tudo e jurou que nunca praticou nenhuma irregularidade. Alguns senadores já pediram uma reunião com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, do DEM, para resolver essa questão que representa um grande desgaste. O Cidadania e a Rede apresentaram um documento sobre o caso, que nunca foi sequer lido. Foi jogado numa gaveta e ponto final. Por que se preocupar tanto com um senador que guardava dinheiro na cueca, não é mesmo? O líder do Cidadania no Senado, Alessandro Vieira, diz que o fato é grave e precisa ser investigado até o fim. O problema é que não há ainda uma decisão judicial para afastar o senador. Sendo assim, Vieira se diz constrangido. E o senador vai voltar nesta quinta-feira, 18.

Ele usou uma frase bonita para dizer que isso não fica bem “porque nós somos os representares do país”. Bonito. Já o senador Randolfe Rodrigues, da Rede, afirma que a volta do senador representará a deterioração completa da imagem do Senado. Que imagem, cara pálida? Que imagem? O líder do PSDB, Izalci Lucas, afirma que não vê constrangimento nenhum com a volta do colega. Mas ele terá que explicar o que de fato aconteceu. Izalci informou que conversou com o senador da cueca e ficou convencido de que ele não fez nada de mal. Disse que naquele dia em que os policiais federais desconfiaram de alguma coisa quando viram a bunda diferente do senador, ele estava muito nervoso e vivia um mau momento. O líder do PSDB não achou nada estranho estar com R$ 30 mil na cueca. De fato, esconder R$ 30 mil na cueca é uma coisa normal. Mas deve ser.

Um outro caso semelhante aconteceu em 2005 com um assessor do deputado José Guimarães, do PT, irmão de José Genoíno. O assessor foi preso no Aeroporto de Congonhas pela Polícia Federal com R$ 209 mil em uma mala e 100 mil dólares na cueca. Claro, o deputado José Guimarães disse, na ocasião, que não tinha nada com isso e o assessor José Adalberto Vieira teve de se virar para se defender. O caso não deu em nada. Todo mundo ficou bem na história. Vice-líder de Bolsonaro no Senado, diante do que ocorreu, entregou o cargo, acusado de desviar verbas federais enviadas para combater a pandemia. De acordo com as denúncias, o senador era ligado às empresas que participaram da licitação para compra de equipamentos e isso lhe rendeu um bom dinheiro. Pelo menos R$ 2,56 milhões foram gastos acima dos contratos, com sobrepreço. Pois é, o senador Chico Rodrigues estará de volta ao Senado nesta quinta-feira, 18. A não ser que desista na última hora. Está com saudade dos colegas senadores e quer abraçá-los. Ninguém sabe ainda se haverá uma festinha para que o senador da cueca se sinta à vontade. Ele volta num dia em que o país está pegando fogo. Que nem um circo. O país é mesmo um circo, mas está ficando mambembe demais.