CPI da Covid-19 é um circo e representa uma afronta à inteligência das pessoas

O exemplo desse picadeiro foi o ‘depoimento’ de Carlos Wizard nesta quarta-feira, 30, em que os ânimos se alteraram e o empresário só respondeu ‘me reservo ao direito de ficar calado’

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 01/07/2021 12h53
MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO Foto da bancada da presidência da CPI da Covid-19 no depoimento do empresário Carlos Wizard Carlos Wizard compareceu à CPI da Covid-19 nesta quarta, 30, mas se negou a responder às perguntas dos senadores

Faz lembrar aqueles ‘cirquinhos’ da infância, no domingo à tarde. Mas aqueles ‘cirquinhos’ tinham alma e contavam sua verdade. Às vezes tristes. Outras, de uma alegria fugaz. A CPI da Covid é um circo, no entanto, é representa uma afronta à inteligência das pessoas. É mesmo um circo, mas dos piores que possam existir, desde os protagonista até o desempenho de alguns personagens diante dos holofotes. É a glória. O exemplo desse picadeiro foi o “depoimento” do empresário Carlos Wizard nesta quarta-feira, 30, em que os ânimos se alteraram. É quase tudo ridículo num enredo que desafia o bom senso. O empresário Wizard chegou acompanhado de advogados, sentou-se no seu lugar e o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD), informou que o depoente não ia responder às perguntas por força de um habeas corpus do STF concedido pelo ministro Edson Fachin. É mais ou menos assim: o sujeito faz o juramento de só dizer a verdade, mas tem no bolso um habeas corpus que lhe dá o direito de mentir. Um espetáculo!

Wizard teria de responder a questões ligadas ao chamado “gabinete paralelo”, vacinação, atuação do governo na pandemia, incentivo ao uso de medicamentos ineficazes contra a Covid-19, financiamento da difusão nas redes sociais de conteúdos falsos sobre a doença e outros temas afins. Por cerca de 80 vezes eles respondeu: “Me reservo ao direito de ficar em silêncio”. O empresário negou a existência do “gabinete paralelo”, assegurando que nunca participou de qualquer reunião, embora um vídeo tenha mostrado o contrário. O show durou mais de cinco horas, porque todos os senadores da CPI fizeram questão de fazer suas perguntas, menos a senadora Simone Tebet (MDB), que rasgou suas perguntas para revelar sua indignação, conforme disse. O vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede), observou que muitas vezes o silêncio fala muito mais, com a frase: “O seu silêncio acaba ofendendo aos mais de meio milhão de brasileiros que foram forçados ao silêncio eterno”. Já o presidente da comissão, senador Omar Aziz, afirmou que o silêncio de Carlos Wizard não ficará impune em nome de 516 mil vidas.

O relator, senador Renan Calheiros (MDB), que tem mais de dez processos nas costas por corrupção, garantiu que a CPI terá acesso a todas as informações necessárias para a investigação. Com silêncio ou sem silêncio. Renan ironizou a conduta do empresário e perguntou onde se encontravam, naquele momento, os “machões” da internet que estavam todos quietinhos e caladinhos na CPI. Wizard aproveitou a sessão para apresentar um livro sobre sua vida e os senadores vaiaram. Foi infeliz o Wizard para falar da sua autobiografia enaltecendo seus feitos na vida. E tudo isso acontecendo num ambiente de circo, daqueles bem mambembes. Só faltou uma bandinha para tocar aquelas musiquinhas antigas. Na verdade, o circo tem que desculpar aqueles que o comparam à CPI. Os senadores que defendem o governo leram laudas e mais laudas sobre a vida do depoente, do que se concluiu que Wizard é um santo a ser venerado num altar. O senador Marcos Rogério disse em alto e bom som que aquilo tudo era um circo. E o presidente da CPI Omar Aziz respondeu: “Vossa Excelência é o maior palhaço que tem aqui”. Esse é o clima. Não pode ser coisa séria. Um palanque de gente que quer falar mais que a boca. E o outro lá na frente repetindo que se reservava ao direito de ficar calado. Hoje e amanhã tem mais. Não esqueça seu pacotinho de pipoca.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.