Declaração de Eduardo Leite representa um cenário em que todos devem ser respeitados

Governador do RS teve a coragem de enfrentar tudo que o cerca e o pensamento vigente no Brasil atual, onde pessoas são discriminadas e marginalizadas devido à sua orientação sexual

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 05/07/2021 16h37
Fátima Meira/Estadão ConteúdoEduardo Leite se declarou homossexual na semana passada

Corajoso o gesto do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), ao dizer-se gay de uma maneira tão natural, que representou um tapa na cara de muita gente neste país. Foi também, ao mesmo tempo, uma atitude política, porque o Brasil vive hoje um período obscurantista como nunca se viu. Se dependesse do governo, todos os homossexuais seriam fuzilados, como fazia o comandante Che Guevara, um dos grandes assassinos da história da humanidade. No entanto, virou herói e é visto hoje até como uma peça de decoração. Pouco sabia da vida de Eduardo Leite, mas desse momento em diante, em que declarou-se gay, passou a merecer meu respeito e profunda admiração. Teve a coragem de enfrentar tudo que o cerca e, de maneira especial, o pensamento vigente no Brasil atual, onde pessoas são discriminadas e marginalizadas completamente devido à sua condição sexual. Não escondeu nada. E por que haveria de esconder?

Eduardo Leite falou sobre o preconceito que sofre e das piadas que a ele se referem. E disse ter orgulho de ser gay. Políticos partidários e até da oposição elogiaram. Quando declinou sua condição sexual, o governador afirmou que no Brasil de hoje, de tão pouca integridade, as pessoas precisam debater o que se é, para que tudo fique claro e nada tenha a se esconder. Observou que nunca criou um personagem para enganar ninguém. Sempre foi o que é. Disse que deseja, de alguma maneira, humildemente, dar uma contribuição para as pessoas que são gays, lésbicas, bissexuais, toda a diversidade da população. As pessoas precisam ser melhor reconhecidas por sua capacidade e não por sua orientação sexual. Elogiado por muitos, essas palavras de admiração podem ser resumidas no que escreveu nas redes sociais o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD): “Muito orgulho de ser amigo desse cara! Tamo junto, irmão”. O presidente Bolsonaro não elogiou. Preferiu debochar, dizendo que Eduardo Leite está se achando o máximo em ter se declarado gay. O presidente afirmou, também, que ser gay é o cartão de visitas de Eduardo Leite para sua candidatura em 2022, observando que ninguém tem nada a ver com a vida de ninguém, mas querer impor seu comportamento a todos, isso não.

Já que estava tecendo comentários preconceituosos, Bolsonaro estendeu seu deboche ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB) e ao senador Randolfe Rodrigues (Rede). Sobre Doria, afirmou que quando ele foi fotografado numa piscina num hotel do Rio de Janeiro, ele não estava de shortinho apertado, calçãozinho largo. E sobre o senador Randolfe Rodrigues, trata-se de uma “gazela saltitante”, de “fala fina”. Bolsonaro já havia ofendido Eduardo Leite por conta da pandemia, quando criticou a ação dos governadores e os prefeitos no enfrentamento à Covid-19. Nessa oportunidade, Bolsonaro referiu-se a Eduardo Leite perguntando “onde ele enfiou” o dinheiro repassado pelo governo federal. Eduardo Leite entrou com uma queixa-crime no STF contra Bolsonaro exigindo explicações do que quis dizer. O mundo mudou. Ou está mudando aos poucos. Homofobia passou a ser crime. E tem que ser crime mesmo. Todas as pessoas têm o direito de viver. E viver em paz. Por isso, a coragem do governador Eduardo Leite declarando-se gay é mais uma mostra dessa mudança. Foi um dia histórico que representará sempre um cenário em que todas as pessoas, todas, devem ser respeitadas e não perseguidas com deboches por aqueles que negam tudo e preferem a violência verbal para ofender. São os machões que seguem o comportamento de um “líder” que ainda haverá de cair na realidade.