Discurso do novo presidente da Câmara sobre a pandemia é lindo, pena que ele ignora tudo o que diz

Depois de afirmar que é necessário ‘vacinar, vacinar e vacinar nosso povo’, Arthur Lira comemorou a sua vitória com festa particular para 300 pessoas, sem distanciamento social ou uso de máscaras

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 04/02/2021 12h12
Dida Sampaio/Estadão Conteúdo - 02/02/2021Horas após dizer que colocará em votação medidas de combate à Covi-19, Arthur Lira promoveu grande festa para celebrar sua vitória na Câmara

Se discurso fosse levado a sério e as promessas cumpridas, este país seria talvez a maior potência do mundo. O Brasil é o país dos discursos e das reuniões de grupos de trabalho. Qualquer assunto merece a formação de um grupo que vai se reunir imediatamente para resolver questões urgentes. Fazemos reunião para marcar reunião. A tarde da última quarta-feira, 3, foi dedicada aos discursos, na abertura do ano legislativo na Câmara. Foi uma delícia para quem gosta de palavras bonitas e frases bem elaboradas com promessas de todos os tipos. Uma verdadeira festa de boas intenções, mas de bem-intencionados o inferno está cheio. Nos discursos recentes e outros já ouvidos no passado, as pessoas ainda esperam para ver o resultado. Isso não acontecia, por exemplo, quando o PT era governo. Os discursos petistas eram todos mentirosos. Quando improvisados por Lula, viravam coisa de hospício. Já o PSOL se transformou num bando. Não dá para levar a sério o que o partido diz ou critica. Caiu na vala comum.

Esqueçamos a tarde de discursos desta quarta-feira, 3, e voltemos para a segunda-feira, 1, em que um discurso fez o presidente Jair Bolsonaro bater palmas de entusiasmo. Afinal, seu candidato à presidência da Câmara dos Deputados venceu a eleição. Arthur Lira fez um discurso de palavras bonitas e propostas que, no fundo, vão contra o que pensa o próprio Bolsonaro em vários assuntos bastante delicados nos tempos atuais. Por exemplo: Lira deu ênfase especial para a vacinação das pessoas e pediu um combate verdadeiramente efetivo contra o vírus. Todo mundo sabe que o presidente da República não pensa assim. Muito pelo contrário. Aliado do capitão, o deputado alagoano (PP) é tido como líder do chamado Centrão, ao qual o presidente se juntou para conseguir maioria no Congresso. Mesmo contrariando tudo que disse em campanha, Bolsonaro tem que se virar para poder governar. É mesmo o “toma lá, dá cá”. Mas quando não foi assim?

De acordo com seu discurso, Lira dará prioridade a medidas que impeçam despesas excessivas do governo. Ele defende o auxílio emergencial, mas não sabe como viabilizar a ideia, já que falta dinheiro. Sua intenção, agora, é colocar em votação as reformas administrativa e tributária. O que chamou atenção no discurso de parlamentar foi a defesa da vacinação da população, assunto que não agrada ao presidente. Lira observou que temos de fortalecer nossa rede de proteção social. “Temos que vacinar, vacinar e vacinar o nosso povo”, disse ele, repetindo a palavra “vacinar” três vezes na mesma frase, como a marcar sua posição pessoal diante do problema que aflige o mundo e sangra todos os dias o Brasil, repleto de mortes pela doença causada pelo coronavírus. Lira deu sua palavra de que a campanha de vacinação em massa será ótima e defendeu a distribuição dos imunizantes aprovados pela Anvisa. Acha, no entanto, que toda vacina tem sua restrição e não pode ser obrigatória, explicando que poderá haver contraindicações para algumas pessoas, conforme a indicação dos laboratórios produtores. Fez a ressalva, mas afirmou em seguida ser preciso salvar vidas. Nisso ele demonstrou não ter dúvidas. Basta olhar o número de mortos no Brasil, mais de 227 mil. Assinalou que o cenário é triste. E nesse triste cenário, milhares ficaram mais vulneráveis socialmente. Disse que é fácil criticar, mas é preciso ajudar, mesmo sendo crítico e duro com a situação atual.

O que não pode é ser defensivo e sabotador. Tudo bem, tudo certinho, tudo nos conformes. Mas ninguém é de ferro. O novo presidente da Câmara, candidato de Bolsonaro, caiu na tentação e esqueceu a Covid-19 e as mais de 227 mil mortos pela doença. Logo depois do seu belo discurso, ele comemorou sua vitória numa festa no Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Foi uma farra. Festa para ninguém botar defeito. Até adversários de Bolsonaro deram o ar de sua graça. Mais de 300 pessoas. Ninguém usava máscara. Foram beijos, abraços apertados e houve até aglomerações maliciosas, numa celebração de dar inveja. A assessoria de Arthur Lira se negou a comentar a falta de máscaras e distanciamento social entre os convidados. Afinal, aquilo era uma festa e ninguém estava a fim de responder ou informar nada. Festas assim estão proibidas no Distrito Federal, mas a fiscalização informou que não podia fazer nada porque a farra estava sendo realizada numa casa particular. Sendo assim, o fiscal só observou. Pandemia? Que pandemia? Uma banda de música animava os convivas do encontro que entrou pela madrugada e terminou já quase de manhã. Pouco antes de a festa acabar, Lira afirmou que, de agora em diante, a vida vai ser dura. Não se sabe ao certo o que ele quis dizer com isso. Parlamentar brasileiro tem vida dura? Parece brincadeira. Só pode ser brincadeira. Certamente os mais de 300 convidados para a festa da pandemia brasileira tiveram que acordar mais tarde. A madrugada foi cansativa demais.