Discussão entre Carla Zambelli e Doria dá o tom de como será a guerra das eleições de 2022

A aliada do presidente e o governador trocaram farpas durante inauguração de conjunto habitacional; campanha presidencial ainda vai ter Lula, com aquele linguajar de quem não mede as consequências

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 31/05/2021 13h30 - Atualizado em 31/05/2021 13h37
Daniel Carvalho/Enquadrar/Estadão Conteúdo - 28/05/2021Evento em São Paulo juntou a deputada federal Carla Zambelli, o governador João Doria e o prefeito Ricardo Nunes

Nervos à flor da pele. A eleição presidencial será no ano que vem, mas os ânimos estão cada vez mais acirrados. Além da angústia da pandemia, o país parece que parou. Não vai a lugar nenhum. Fica tudo na base do insulto. E da conversa. O Brasil deve ser o país em que mais se faz reunião e discurso no mundo inteiro. Já faz algum tempo que qualquer discurso se transforma em ofensa ao outro, o que revela o cenário que nos espera em 2022. Não será uma campanha eleitoral, mas uma guerra. É o que ocorreu nesta sexta-feira, 28, quando o governo federal e o governo de São Paulo inauguraram um conjunto habitacional na zona leste da capital paulista, construído conjuntamente. Evidentemente, Jair Bolsonaro não compareceria na cerimônia de inauguração, por ter no governador João Doria não somente um adversário político, mas um inimigo. No lugar do presidente, foi a deputada federal Carla Zambelli (PSL), com direito a fazer um discurso. E fez um ofensivo, ao qual Doria se manifestou enquanto a deputada falava.

E o que dizia Carla Zambelli? Dizia que Bolsonaro não destruiu empregos, não fechou o comércio, não decretou lockdown e não impôs toque de recolher. Claro, essa narrativa tinha endereço certo, o governador. Mas quando chegou nesse trecho, ninguém esperava pela reação de João Doria, que se levantou e chamou Bolsonaro de genocida. Sim, Bolsonaro não tinha feito o que enumerou a deputada, mas destruiu vidas. E repetiu isso várias vezes. A plateia aplaudiu o tucano e vaiou Zambelli. Ao final, a deputada afirmou que Doria deveria permitir que ela concluísse seu pronunciamento e que se manifestasse depois. Carla observou que, na verdade, era tudo natural, partindo do rival, que, certa vez, disse que ela deveria engraxar botas de militares. A parlamentar afirmou, então, que engraxa com prazer as botas de seu marido, que é militar. Quer dizer, uma cerimônia de inauguração de um conjunto habitacional se transformou numa discussão que caberia bem num boteco.

Quase na mesma hora começou a a reação nas redes sociais. A maior parte dos internautas escreveu que Carla Zambelli compareceu à inauguração exatamente para ofender o governador. E o fez em nome de Bolsonaro. No seu Twitter, Carla observou que João Doria interrompeu seu discurso para gritar como um louco. Lembrou o apelido “Calça Apertada” que Bolsonaro deu a Doria, dizendo que o governo federal não aperta as calças, mas arregaça as mangas para trabalhar. O ministro do Desenvolvimento, Rogério Marinho, pontuou que não faz bem a ninguém essa atmosfera de politização de um problema em que o único inimigo é o vírus. Zambelli assinalou que aves de plumas diferentes não voam juntas. Já o tucano se aproximou da deputada e lhe disse que nunca faria um discurso movido pelo ódio. E afirmou que a união dos governos federal, estaduais e municipais não tem ideologia, porque a ordem é servir, atender e respeitar.

Doria criticou a postura de Bolsonaro de sempre se colocar contra as medidas restritivas e de isolamento social no enfrentamento à Covid-19, medida tomada por todos os países do mundo com apoio do governo central, o que não acontece no Brasil. Observou que o governo brasileiro se coloca até mesmo contra a vacinação da população, que já conta com quase meio milhão de mortos. Esse tom revela como vai ser a campanha presidencial no ano que vem. Mas, afinal, a população já está acostumado com essa linguagem. E tem ainda o Luiz Inácio da Silva para ajudar nesse cenário, com aquele linguajar de quem não mede as consequências, com um baixo nível que envergonha. Falta tempo ainda para a eleição, mas as cartas estão sendo jogadas na mesa. Vai ser jogo bruto. E é nesse jogo sem qualquer cordialidade que será escolhido o novo presidente do Brasil. Certamente vencerá aquele que conseguir ofender mais. Esse parece ser o nosso destino. 

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.