Cada pessoa vacinada contra a Covid-19 carrega em seu braço a esperança de um Brasil melhor

Ainda vai chegar o dia em que todos estarão unidos num imenso abraço; o povo tem o direito de ser feliz

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 01/02/2021 12h21 - Atualizado em 01/02/2021 13h43
Alex Silva/Estadão Conteúdo - 17/01/2021Ao lado de João Doria, a enfermeira Mônica Calazans ergue os braços após ter sido vacinada em São Paulo

As cenas felizes neste tempo em que vivemos são raras. Mas existem. Estão sempre em algum lugar, embora sufocadas quase sempre por uma dor sem tamanho. Pandemia é o horror dos horrores. Vê-se o medo estampado no rosto da maioria. Um inimigo invisível que ataca no mundo inteiro. Mas, mesmo neste período de tanta dor, é possível guardar alguns momentos felizes. E é preciso busca-los nessa memória recente. “Para não dizer que não falei das flores”, como diria Geraldo Vandré, vamos nos aquecer nesses momentos de alegria ainda possíveis nesta escuridão. Por exemplo: não podemos esquecer o contentamento da enfermeira Mônica Calazans, 54 anos, que faz parte do grupo de risco e trabalha da Unidade na UTI no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, uma referência no tratamento de doenças infecciosas. Que momento aquele, quando ela se sentou, arregaçou a manga de sua blusa e recebeu a vacina contra a Covid-19, no Hospital das Clínicas, na Faculdade de Medicina da USP. Com os olhos molhados, Mônica afirmou que aquela vacina representava voltar à vida normal. Falou mais: “Sinto-me feliz, representando os profissionais da saúde e a população brasileira”. E acentuou: “Quero que acreditem na vacina!”. Negra, moradora da periferia de São Paulo, em Itaquera, ela foi imunizada com a CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan, de São Paulo, com a farmacêutica chinesa Sinovac.

Valeu esse instante de tanta alegria neste clima de dor em todo o Brasil, ceifando vidas (mais de 220 mil já). Depois dessa cena, muitas outras iguais aconteceram no interior do Brasil e em outras capitais. Naquele dia, Mônica sentiu-se como uma heroína ou, quem sabe, até como uma rainha sem reino nenhum, senão o reino sagrado de sua vida. É uma pena que o Brasil tenha que se submeter a uma política negativista em relação a uma doença tão grave. Hoje o Brasil é o único país do mundo que insiste em ser contra tudo. Na verdade, é erro dizer-se país. O país não tem culpa da falta de sensibilidade e até de compaixão que determinados governantes destinam ao seu povo, como se fossem eles os donos de todas as verdades. Dona da verdade é dona Mônica Calazans, que, com os olhos molhados e um sorriso enorme na boca, bendizia a vida. Ela foi a primeira vacinada do Brasil, mas também participou como voluntária no testes da vacina. Foi um momento comovente em que as pessoas, depois de tantos desenganos, pronunciaram a palavra esperança.

Com a palavra esperança na boca e no coração, já era possível ignorar as frases fulminantes do presidente deste país, desacreditando a vacina de todas as maneiras, como se fosse uma espécie de deus nas terras brasileiras, dono de todas as pessoas, inclusive das milhares de mortes que ele ignora. Diante da alegria de dona Mônica, o presidente dizia que ia exigir a assinatura de um termo de responsabilidade de todos aqueles que se vacinassem, porque ele não estava disposto a assumir os efeitos colaterais da vacina conquistada com tanta luta por cientistas e médicos de vários laboratórios do mundo. Mas essas palavras não deixaram de importar. Pelo menos naquele instante da primeira aplicação no Brasil. O que importava era o sorriso aberto de dona Mônica, com os braços abertos, como que querendo abraçar todas as pessoas, num gesto afetivo maior que o mundo. Essa cena se repetiu, quase sempre envolvida em muita emoção de gente que esperou esse dia da vacinação. Médicos e médicas experientes na profissão demonstravam emoção numa alegria feita de abraços e lágrimas das mais verdadeiras, como exige a vida de cada um.

A maioria das pessoas está apostando na ciência, embora o Brasil faça questão de viver na contramão, contrariando conceitos da medicina. Equivale dizer contrariando os conceitos da vida. Tem de entrar nesta história de esperança a enfermeira Jéssica Pires de Camargo, de 30 anos, funcionária do Controle de Doenças e mestre em saúde coletiva pela Santa Casa de São Paulo. Foi Jéssica quem aplicou a primeira vacina no Brasil. Não escondeu sua emoção, apesar de todos os dias amparar doentes, tantas vezes terminais, em suas camas. A palavra esperança voltou à população naquele instante da primeira vacina aplicada no país. De lá para cá, muita coisa aconteceu, quase sempre marcadas de muita tristeza, especialmente o discurso do presidente da República, para quem a palavra esperança não existe. Mas ela existe, sim. Dona Mônica Calazans é prova disso. Ainda vai chegar esse dia em que todos estarão unidos num imenso abraço. O povo tem o direito de ser feliz.