Ex-porta-voz de Bolsonaro fez críticas duras ao presidente, mas ficou por isso mesmo

Em artigo, general Rêgo Barros afirmou que um mandatário da nação, democraticamente eleito, deve agir como ‘o primeiro entre os iguais’

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 28/01/2022 15h29
Wilson Dias/Agência Brasil Ex-porta-voz da Presidência da República, Otávio do Rêgo Barros Rêgo Barros deixou o governo Bolsonaro oficialmente em outubro de 2020

O general Rêgo Barros está com raiva. Muita coisa não tem agradado o general, que decidiu se manifestar, como se tivesse pedindo uma satisfação. As palavras do general Rêgo Barros, que foi porta-voz de Bolsonaro, são duras e contundentes. Tudo indica que pouco se importou com as consequências. Afinal, ele é um general. As declarações do general foram dirigidas a quem? São palavras nada agradáveis para ouvidos sensíveis e atentos: “Nenhum político, de esquerda ou de direita, liberal ou conservador, detém o título de posse das Forças Armadas”. Observou, em artigo no jornal O Globo, que a escritura está no nome da população, de cada um dos brasileiros. Isso deve ter um endereço. O general Rêgo Barros não viria a público sem mais nem menos para se manifestar assim se não tivesse um objetivo. Adiantou que um mandatário da nação, democraticamente eleito, deve agir como “o primeiro entre os iguais”. 

Pela Constituição, o primeiro mandatário é o comandante-chefe das Forças Armadas e suas estrelas brilham tão somente pelo voto. Portanto, seu poder é temporário e suas prerrogativas para o destino da instituição passam pelo consenso da sociedade. No artigo, o general Rêgo Barros adiantou que esse pensamento lhe veio à cabeça quando ele ouviu um ativista da esquerda numa live dizer que o Brasil não precisa se preparar para conflitos. O tema da conversa era o papel e protagonismo político das Forças Armadas nos últimos anos. O general confessa que não gostou, afirmando ser necessário incorporar mais serenidade nas discussões de temas sensíveis. Nessa live, ficou subtendido que a derrota da esquerda no último pleito presidencial foi consequência de um protagonismo das Forças Armadas no chavascal político da década passada, dominada pela esquerda. Adiantou que hoje a esquerda credita às Forças Armadas qualquer deslize ou equívoco do governo. O general observou que o Exército não tem culpa pelos “erros grosseiros” da gestão do presidente Bolsonaro. Afirmou que, a seu juízo, a instituição reafirma-se como órgão de Estado, afastada da política partidária, com valores e tradições preservadas e liderança serena. Não é, portanto, responsável pelos erros da atual gestão do país. 

Desde que deixou o cargo de porta-voz da Presidência da República, extinto por Bolsonaro, o general Rêgo Barros vem se dedicando a escrever artigos para jornais criticando o presidente e sua gestão. Mas desta vez foi longe demais. Quer dizer: as afirmações do general tem endereço certo, que é o Palácio do Planalto e aquele que está hoje sentado na cadeira de presidente da República. Fora isso, o general adiantou que Bolsonaro interfere nas Forças Armadas, na Polícia Federal, na Receita Federal e também na diplomacia. Essas declarações foram feitas há alguns dias e o governo parece não ter se preocupado com elas. Pois deveria se preocupar, sim. Essas afirmações são duras. Mas talvez o melhor é fazer de conta que não sabe de nada. É mais fácil. Críticas de um político qualquer não podem mesmo preocupar, mas é bem diferente quando essa crítica é feita por um general da reserva, que tem influência nas Forças Armadas. O general deu o seu recado com endereço e tudo ficou por isso mesmo. Faz tempo que tudo fica por isso mesmo.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.