Fauna da política brasileira tem anta, onça e macaco que não estão nem aí para o povo

Em um jogo de provocações e palavras de baixo calão, Bolsonaro provoca, Omar Aziz e Renan Calheiros rebatem e ninguém saí ganhando

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 22/07/2021 15h19
Edilson Rodrigues/Agência Senado - 15/06/2021Os senadores Omar Aziz, Renan Calheiros, Humberto Costa, Rogério Carvalho e Randolfe Rodrigues conversam antes de sessão da CPI da Covid-19

Entre antas amazônicas e macacos guaribas, tudo vai bem na pátria armada. O nível da discussão política brasileira está ótimo. Não bastassem as alucinações da CPI da Pandemia, as palavras ofensivas correm paralelas com insultos que vão fundo, doa a quem doer. Aliás, é para doer mesmo. É ofensa para sentir de verdade, sem meias palavras. Durante conversa com apoiadores no cercadinho do Palácio do Planalto, na última segunda-feira, 20, o presidente Bolsonaro criticou a CPI que denunciou o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, em caso de compra de vacinas CoronaVac. Dirigindo-se aos integrantes oposicionistas da comissão, Bolsonaro chamou o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD), de “anta amazônica”. Em seguida, caracterizou Aziz e os senadores Renan Calheiros (MDB) e Randolfe Rodrigues (REDE) de “três otários”. Sobrou também para o irmão de Renan Calheiros, do PC do B, que apresentou uma emenda para comprar qualquer vacina, mesmo sem a aprovação da Anvisa.

Bolsonaro explicou o que quer dizer PC do B, afirmando que não falaria o que representa o “C” da sigla. Disse, então que a ordem entre eles todos era comprar vacina até na Lua. A CPI dos “três patetas” que queriam fazer qualquer negócio. Na verdade, “três otários”. “Se Pazuello tivesse tratando de corrupção, não existiria vídeo, meu Deus do céu!”, exclamou o presidente. Está certo. Como é que o cara vai cometer um crime e manda filmar como prova de sua conduta criminosa? Seria num porão ou num canto qualquer. Bolsonaro afirma que, naquela oportunidade, Pazuello conversou com empresários. “Eu converso com empresários todos os dias, então sou criminoso também”, afirmou o presidente. Disse, ainda, que isso é coisa do Omar Aziz, a “anta amazônica”.

O senador Omar Aziz respondeu ao presidente dizendo que na CPI não existe anta, mas onça, e o felino vai pegar o “macaco guariba”. Chamando Bolsonaro de “macaco guariba”, Aziz aconselhou o presidente a estudar mais a fauna amazônica. Para seguir o nível, o senador observou que o predador do macaco guariba é a onça. Disse, então, que o primata anda em bando pela floresta e, para se defender, usa os orifícios, urina e defeca na onça pela boca. Mas que a onça sempre pega o macaco. Bolsonaro, então, disse que esse tipo de conversa só pode partir de um cara que desviou R$ 260 milhões do seu Estado, o Amazonas. E referiu-se a Renan Calheiros, dizendo que só um cara que tem no STF 17 inquéritos por corrupção e lavagem de dinheiro pode usar daquela arrogância como relator da CPI.

O nível é excelente e explica bem o momento brasileiro. Não se discutem ideias, um rumo para o país. As discussões quase sempre são para a desclassificar o outro. Macaco guariba, onça, anta, essas coisas. O que se espera é que, num momento mais exacerbado, ninguém xingue as mãe de ninguém. Aí vai ser demais, mas do jeito que está o país, isso não seria impossível. Até porque xingar a mãe do outro no Brasil é coisa comum. Agora, em vez de xingar a mãe, eles podiam se matar uns aos outros. Seria um final feliz.