Imagem de Bolsonaro gargalhando ao lado de Luciano Hang vale mais que mil palavras

Presidente publicou a foto nesta quinta-feira, um dia depois do depoimento do empresário à CPI, no qual ele fez o que bem entendeu

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 01/10/2021 13h40 - Atualizado em 01/10/2021 13h40
reprodução/twitter/jairbolsonaroBolsonaro publicou uma foto gargalhando ao lado de Luciano Hang um dia depois do depoimento do empresário à CPI da Covid-19

Eles gostam de rir. Mas eles estão rindo do quê? Não levam o país a sério. O país caindo aos pedaços e eles riem. Quase 600 mil mortos, 14 milhões de desempregados, mais de 20 milhões de famílias que não têm o que comer, aprovação do governo em queda livre. E eles riem. Riem a gargalhadas. Gargalhada de engasgar. É bem verdade que, muitas vezes, uma imagem vale mais que mil palavras. O presidente Bolsonaro festejou a sessão da CPI da Covid que ouviu o proprietário das lojas Havan, Luciano Hang, na quarta-feira, 29, e divulgou uma foto dos dois, num momento de inteira felicidade, numa gargalhada que se ouve só de olhar. É mesmo uma provocação. Na verdade, o país começa a rir da própria desgraça. Hang deitou e rolou na CPI. Engoliu os senadores mais furiosos com certo ar de deboche. Deu respostas desmoralizantes. Mas, seja como for, um presidente da República, de qualquer República, não pode sair numa farra dessas. Não pode. Ele é um presidente da República e se deixa levar por cenas degradantes, como essa da foto. Na verdade, uma molecagem.

Bolsonaro publicou a foto na manhã desta quinta-feira, 30, um dia depois do depoimento de Hang. Pura gargalhada. É demais. Parece coisa de boteco, onde muitos se encontram para uma azucrinação qualquer. A sessão na CPI foi marcada por muita conversa e discussões inúteis, além das zombarias de Luciano Hang, que fez o que bem entendeu. Aquilo foi mais do que um circo. Um país que tem coisas assim, incluindo essa foto e essa gargalhada, não pode ser levado a sério. É impossível. A legenda da foto é a seguinte: “Bom dia a todos. Sigam-nos no Telegram”. A gargalhada foi certeira. Os integrantes da oposição da CPI sentiram fundo. Nem dá para explicar. Alguns senadores tentaram reagir àquela provocação de Bolsonaro. Disseram que o depoimento de Hang reforçou as suspeitas de que muita gente ligada ao presidente faz parte de um pacto firmado entre o governo federal e a operadora Prevent Senior, com o objetivo de validar medicamentos considerados ineficazes e desestimular o distanciamento social e o lockdown. Fora isso, o empresário é acusado de ser um integrante do chamado “gabinete paralelo”, que aconselha o presidente como agir na pandemia, além de incentivar o chamado tratamento precoce. Tudo à margem do Ministério da Saúde.

É sabido que ao longo de toda a pandemia, Hang sempre defendeu ideias negacionistas que ignoram o vírus. Exatamente como faz o presidente. Hang é um súdito fiel. Na verdade, Hang parecia estar num parque de diversões, comendo maçã do amor, pipoca e algodão doce. A cada resposta, fazia cenas dignas de um Oscar para o cinema do deboche. Foi mesmo uma farra. Muitos dos senadores perderam a paciência e Hang, como um maestro de uma orquestra, vestido com seu costumeiro terno verde e seus sapatos amarelos, usava sua varinha mágica para por ordem na casa. Tinha até um lencinho amarelo no bolso do paletó grotesco. Zombou de todo mundo. Mas zombou mesmo. No fundo, foi uma sessão ridícula que mostra bem a cara deste país entregue às baratas. Essa foto de Bolsonaro e Luciano Hang gargalhando explica bem os rumos brasileiros. Não dá para engolir isso. Não dá para compreender um presidente da República que age dessa maneira, como se governar o país fosse uma brincadeira qualquer para se ocupar nas horas vagas. São quase 600 mil mortos. Afinal, eles estão rindo do quê?