José Dirceu anda como um fantasma pelas ruas da política à procura de um lugar que o abrigue

Aos amigos mais próximos, ex-ministro diz que não tem qualquer expectativa de fazer parte de um possível novo governo de Lula; no fundo, ele acha que o ex-presidente mudou em relação a ele

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 04/08/2022 14h17
EFE/ARCHIVO/Hedeson Alves José Dirceu José Dirceu foi ministro de Lula e foi condenado no caso do Mensalão

José Dirceu é um fantasma, mas ele finge que não. Anda como um morto-vivo pelas ruas da política à procura de um lugar qualquer que o abrigue. Com a maior cara dura do mundo, o ex-ministro afirma que o mensalão nunca existiu. Foi apenas uma invenção. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal exatamente por esse assalto, a declaração foi feita numa entrevista há alguns dias, quando Dirceu defendia a ex-presidente Dilma Rousseff na troca de ofensas entre ela e o ex-presidente Michel Temer. O ex-ministro todo poderoso, o “guerreiro do povo brasileiro”, foi também condenado pela Lava Jato. Dirceu garante que são condenações sem provas e joga tudo no lodo da política. Em abril deste ano, o Superior Tribunal de Justiça manteve a sentença de 27 anos de prisão por associação criminosa, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Em outro processo também por corrupção, a  condenação em segunda instância chegou a 30 anos. Nos dois casos, José Dirceu recorre em plena liberdade no Brasil varonil. Já o advogado de defesa, esperto, começa a alegar prescrição dos crimes para anular as sentenças. É assim que funciona.

José Dirceu, o guerreiro, comandou a campanha vitoriosa de Lula em 2002. Aos amigos mais próximos, ele diz que não tem qualquer expectativa de fazer parte de um possível novo governo de Luiz Inácio da Silva. No fundo, Dirceu acha que Lula mudou em relação a ele. O ex-ministro poderoso assegura que é perseguido pela Justiça, dizendo ser ele o “último réu” da Lava Jato, por que não conseguiu anular suas condenações como outros presos famosos. Carta fora do baralho, Dirceu ainda cisca por aí na esperança de encontrar uma brecha para voltar à política. Mas as portas do PT estão fechadas, embora ele nunca tenha abandonado o partido. É que, muitas vezes, a desfaçatez é tanta que até um partido indecente como o PT cai em si e procura se ajeitar de qualquer maneira no cenário melancólico brasileiro.

Luiz Inácio da Silva já declarou que, se for eleito, quer fazer um governo com “gente nova”. Para exemplificar, afirmou que gente como José Dirceu, José Genoíno e Dilma Rousseff não terão lugar no seu governo. Mas a lista é bem maior. Raposa velha, Lula se apressa a dizer que tem todo o apreço pelos companheiros, mas os tempos mudaram. Há necessidade de novas cabeças. Gente inteligente. Esclarece que aqueles que o ajudaram no passado no máximo podem dar algum palpite de vez em quando. Só. Mais nada. No entanto, Lula deixou claro que os companheiros antigos poderão ajudar mesmo não fazendo absolutamente nada. José Dirceu se mete onde não é chamado. Ele tem conversado com dirigentes do PT dizendo que Lula deveria se reunir quinzenalmente com aliados políticos, de movimentos sociais a grupos de interesse. Dirceu tem dito que Lula erra demais quando discursa, porque não sabe ao certo o que está acontecendo. Já falou até com Lula, que só ouviu. Dirceu garante que não quer participar da campanha porque tem consciência de que sua presença prejudicaria a candidatura petista. Mas ainda arrisca dizer que Lula se acertará com Ciro Gomes para garantir sua vitória no primeiro turno. Não é tão fácil como pensa o ex-poderoso ministro da Casa Civil. Seja como for, José Dirceu vai saindo das sombras dando seus palpites. Como este é um país que esquece tudo e quase todos os compromissos firmados não são cumpridos, quem sabe, de repente, José Dirceu vira ministro outra vez, será inocentado de todos os crimes de corrupção que praticou e terá uma vida boa novamente? Neste país tudo é possível. Dirceu não está falando por aí à toa.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.