Lula costuma abandonar seus companheiros, mas parece que com Marina Silva é diferente

Petista tenta se reaproximar de ex-ministra do Meio Ambiente para as eleições 2022

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 12/05/2022 14h01 - Atualizado em 12/05/2022 15h39
WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO Lula durante jantar do grupo Prerrogativas, em São Paulo, neste domingo, 19 Lula teve Marina Silva como ministra do Meio Ambiente no seu governo, entre 2003 e 2008

Faz tempo que Luiz Inácio da Silva quer se aproximar da “companheira” Marina Silva (Rede), ex-ministra do Meio Ambiente no seu governo, de onde saiu praticamente expulsa, época em que Marina era considerada uma das mulheres mais influentes do mundo. Talvez Lula queira pedir desculpas. Não, isso não. Ele não é dado a essas atitudes consideradas nobres. Longe disso. No seu governo, Marina Silva seguia à risca o que pede o Meio Ambiente, o que enraivecia a então ministra Dilma Rousseff, repleta de ciúmes e inveja, que comandava a Casa Civil e exercia forte pressão contra Marina, que acabou se demitindo. Dilma passou, então, a integrar a equipe do meio ambiente do governo, até representando o país em eventos internacionais nessa área. E Lula, sempre traiçoeiro, abandonou Marina Silva à própria sorte, como se sua saída nada representasse ao Brasil diante do mundo. Marina se defendeu, dizendo o seguinte: “Eu sou internacionalmente a cara da questão ambiental do Brasil”. 

Dando ordens no setor, Dilma representou um desastre. E o desastre continuou depois, quando Dilma tornou-se presidente da República. A “companheira” Marina Silva não esqueceu. O coordenador da campanha de Lula, senador Randolfe Rodrigues, do mesmo partido de Marina, tem se esforçado na reaproximação, mas Marina continua arredia, lembrando especialmente a campanha eleitoral para a Presidência em 2014, quando ela liderava as pesquisas contra a então candidata Dilma Rousseff, que chegou a dizer, com o aval de Lula, que Marina era sustentada por banqueiros. O que mais magoou a ex-ministra, no entanto,  naquela ocasião, foi a campanha eleitoral de Dilma, que mostrava a comida desaparecendo de uma mesa caso Marina fosse eleita. E Lula, o traidor de tudo e da própria vida, dizia que Marina não tinha aprendido nada enquanto esteve do PT.

Vejam onde chega a loucura e a estupidez: quando Marina decidiu deixar o governo, Lula aconselhou Marina a fazer uma entrevista coletiva e dizer aos jornalistas que sonhou com Deus e que Deus pediu que ela continuasse no seu posto. Bem, aí já se entra na área da alucinação, bem condizente com Luiz Inácio, que nunca sabe ao certo que faz. Mas Marina acabou deixando o governo de Lula em 2008, completamente humilhada. E Lula, ele mesmo, informou à imprensa que ela sonhou com Deus e Deus ordenou que ela saísse. Lula foi questionado sobre isso. Com cinismo, disse apenas “que só Deus pode esclarecer essa questão”, zombando da fé da ex-ministra, que é evangélica. E fazia isso na cara dura, como era e ainda é de seu feitio. 

De qualquer maneira, Marina Silva diz estar disposta a votar em Lula contra Bolsonaro, observando que derrotar o atual presidente Bolsonaro “é um imperativo ético, um ato de legítima defesa da civilização, da democracia e do respeito à dignidade humana”. Diz que de sua parte nada tem pessoalmente contra Lula. Mas existem questões concretas, de natureza objetiva que podem ser conversadas nesse contexto. Nada de “companheira” para cá, “companheira” para lá. 

Marina não participou da cerimônia de lançamento da candidatura de Lula, embora a Rede esteja entre os partidos apoiadores. E na ocasião, Lula se queixou da ausência da “companheira”, fazendo alguns elogios que a própria Marina fingiu acreditar. Não viu nessa atitude nenhum aceno. Mas junto com os elogios, Lula disse que “companheira” Marina não compareceu “porque às vezes ela demonstra momentos de raiva”. Marina respondeu apenas que as coisas não se resumem em “mágoa” ou “rancor”, como deseja Lula. As divergências são políticas. 

Marina adianta que poderá abrir um canal de conversa com Lula desde que o PT reconheça tudo que fez errado no passado. Já Lula deixou claro que não dará o primeiro passo. Marina pouco se importa e diz que se houver um diálogo, tem que ser em termos programáticos. Todo mundo sabe que Lula costuma abandonar seus companheiros. Parece que com Marina Silva a coisa é diferente. Ela não é uma política qualquer. É joia rara no meio dessa lama que o Brasil é obrigado a viver de todos os dias.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.