Lula não está tão quieto quanto parece, mas o PT está dividido e a conversa é difícil

No domingo, ex-presidente jantou com a cúpula do PSB em Pernambuco, tentando remendar os estragos entre o partido e o PT nas eleições do ano passado e disse que não quer ficar refém de partidos menores

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 19/08/2021 10h52
Wilton Junior/Estadão ConteúdoEx-presidente já começou a fazer encontros e reuniões para definir alianças para sua candidatura nas eleições de 2022

Luiz Inácio da Silva não está tão quietinho como parece. Começa a partir para o ataque, raivoso como sempre. Sempre foi assim. Um grande esperto. Aquela tática covarde. Já se sabe que ele voltou a frequentar o seu instituto para articulações políticas. Aqueles conchavos de sempre. Tudo igual, como antes da grande decepção. Na semana passada, o ex-presidente e ex-presidiário por corrupção iniciou uma viagem a seis estados do Nordeste. O primeiro encontro foi com o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, do PSB. Lula quer o apoio do partido em 2022. Na noite de domingo, 15, Lula jantou com a cúpula do PSB em Pernambuco, tentando remendar os estragos entre o partido e o PT nas eleições do ano passado. Disse que não quer ficar refém de partidos menores de centro. Com aquela conversa manjada, lembrou que o PSB e o PT já se enfrentaram em várias eleições, mas não é por isso que vê o partido como inimigo. Já no Ceará, Lula encontrou um ambiente nervoso, não muito favorável às suas pretensões. O PT está dividido e a conversa é difícil.

Com aquela cara de pau já conhecida, ignorou os conflitos gerados pela candidatura de Ciro Gomes e foi dando ordens como se fosse o dono da rapadura. Mas não é. Ciro Gomes, por seu lado, desanca Lula como se o ex-presidiário fosse um delinquente. Não vai ser fácil. O Jornal da Manhã da Jovem Pan desta quinta-feira, 19, apresentou trechos de uma fala de Lula no Piauí, nesta quarta-feira, 18, a uma plateia favorável. Aproveitou e desencantou o presidente Bolsonaro, dizendo que esse casamento com o novo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, vai durar pouco. E que se não sofrer o impeachment, Bolsonaro será derrotado nas urnas por tudo de mal que fez a este país. Falou como um salvador da pátria. Nada tenho a ver com Bolsonaro, mas Lula fez o que por este país senão jogá-lo num abismo que não tem fim? Um corrupto que traiu a própria vida para se beneficiar num assalto ao dinheiro público nunca visto na história da humanidade. O que deseja esse sujeito? Deixe o país, suma daqui!  

Lula desistiu de contar com um supermarqueteiro para sua campanha, como das vezes anteriores. Prefere ter uma equipe para preparar o material a ser distribuído ao rádio e à televisão. Fora isso, Luiz Inácio da Silva não desiste da intenção de se aproximar dos militares. O ex-presidiário por corrupção, solto depois de uma manobra do STF, não se manca. Os interlocutores de Lula têm procurado a caserna tentando um contato com altas patentes, mas até agora tem sido ignorado. Lula quer se aproximar especialmente de integrantes das Forças Armadas que não aceitam a maneira com que Bolsonaro governa o país, provocando tumultos em praticamente toda a vida nacional. É desaforo atrás de desaforo. Insultos de toda ordem, todos os dias. País governado? Que país? O Brasil não pode ser, já que isto aqui se transformou num verdadeiro picadeiro. O ex-presidiário que traiu sua própria vida cedendo à corrupção e ao dinheiro fácil quer aproveitar este momento em que Bolsonaro discute com todo mundo para barrar a urna eletrônica e não para de ofender o STF. Lula faz questão de dizer em todo boteco que, quando foi presidente da República, nunca teve nenhum problema com as Forças Armadas e que, se for eleito em 2022, essa harmonia estará garantida. O PT, aquele ex-partido da esperança e da felicidade, não está gostando dessa postura de Lula, que ainda é o maior líder da chamada esquerda brasileira. Para ter Lula como líder tem que ser uma esquerda muito vagabunda. A esquerda civilizada vê em Lula um zero à esquerda, um corrupto solto da cadeia antes da hora.

Oportunista, até agora Lula não disse uma única palavra sobre as manifestações neuróticas de Bolsonaro, entre elas a que não haverá eleições no ano que vem se o voto não for impresso. Fica quietinho, como agem os espertos. Esta é uma terra de gente esperta. No entanto, tal esperteza não tem despertado interesses dos militares em se aproximar de Lula. Não querem conversa, o que não significa que haverá problema caso Luiz Inácio da Silva seja eleito. Aí a conversa será outra. Será empossado e baterão continência ao petista. Afinal, nesse caso, trata-se do presidente da República, não alguém que anda por aí manobrando com todo mundo para viabilizar sua eleição. Há quem diga que o maior cabo eleitoral de Lula é Bolsonaro, assim como Lula e o PT levaram Bolsonaro à vitória em 2018. Lula não diz mais que política é para civis, não para militares. Não. Prefere ficar com a boca calada, embora seja exatamente isso que ele pensa. Já Bolsonaro continua a dizer que sem voto impresso Lula ganhará as eleições de 2022 pela fraude. Bolsonaro ainda chama Luiz Inácio da Silva de canalha e bandido de nove dedos. É um nível excelente. As palavras não são medidas e a ordem parece ser a de insultar cada vez mais. Seja como for, Lula está atrás dos militares. Quer conversar com eles, só que eles não estão a fim de conversar. O que Lula diz hoje ele dizia nos anos de 1960/70. Nessa época, ele pensava que o Brasil era um sindicato. Não mudou nada. A conversa é sempre a mesma. Essa esquerda vagabunda, especialmente ligada ao PT, não se deu conta de que o mundo mudou e, com o mundo, o Brasil mudou também.