Lula se movimenta como se ele fosse o governo do Brasil e se intromete onde não é chamado

Ex-presidente pretende se encontrar com embaixador russo para tratar da vacina Sputnik V e articula encontros com outras figuras importantes visando as eleições 2022

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 05/05/2021 14h21 - Atualizado em 05/05/2021 15h25
DANILO M YOSHIOKA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - 10/03/2021Nesta semana, Lula se reuniu com Marcelo Freixo, do PSOL, para discutir uma possível frente ampla para as eleições de 2022

Luiz Inácio da Silva está se tornando uma espécie de chefe de um governo paralelo, tal sua desenvoltura nas lides políticas do país. Está conversando com todo mundo. É preciso ter muito descaramento e desfaçatez. Agora está em Brasília costurando acordos e conchavos. Na segunda-feira, 2, conversou demoradamente com Marcelo Freixo (PSOL), discutindo a formação de uma frente ampla para derrotar Bolsonaro em 2022. Freixo informou que falou com Lula sobre as milícias no Rio de Janeiro e a relação de Bolsonaro com ex-militares que hoje atuam no crime organizado. Mas o que mais espanta é ver Lula marcando reunião com embaixadores de outros países para discutir a questão da vacinação no Brasil, como se fosse ele o presidente da República. Vendo as brechas escancaradas à sua frente, o ex-presidente e ex-presidiário por corrupção vai entrando, como uma autoridade. Não é brincadeira! Vai se encontrar com o embaixador russo, Alexey Labetskiy, para discutir a vacinação no Brasil e a vacina Sputnik V, que não teve o uso aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Lula quer reverter essa decisão.

Fala-se que Lula já teria se reunido com diplomatas da Embaixada da Alemanha. Sabe-se, ainda, que Lula tentou um encontro com Renan Calheiros, relator da CPI da Covid-19, mas Calheiros se negou, argumentando que isso poderia prejudicar seu trabalho na CPI com ataques de apoiadores de Bolsonaro. Esses encontros estão sendo organizados pelo ex-chanceler Celso Amorim, que tenta também uma reunião de Lula com o embaixador da China, país que tem fornecido insumo farmacêutico ativo necessário para a fabricação de vacinas no Brasil. Além de Celso Amorim, participa dessas reuniões o ex-candidato à Presidência Fernando Haddad, derrotado por Bolsonaro em 2018. Lula já tem encontro marcado com o ex-presidente José Sarney, com quem tratará de questões ligadas ao auxílio emergencial que, conforme diz, deve ser de R$ 600 durante a pandemia. Por segurança e para evitar tumultos com grupos bolsonaristas, o PT decidiu que de agora em diante a agenda de Lula não será mais divulgada.

Lula pensa em formar uma frente com a participação do PT, PDT, PSB, PCdoB e PSOL, e os contatos já estão sendo feitos. Luiz Inácio da Silva já mandou um recadinho para o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que deu sinal verde para um encontro. É só marcar a data. O cenário é esse. Com a ausência do governo, Luiz Inácio da Silva vai se movimentando como se fosse ele o governo do Brasil. Lula está aproveitando bem esse vazio na área da vacinação. Uma área que, no fundo, só tem conversa, conversa, conversa e mais conversa. Não tem nada a perder. Pelo contrário, só tem a ganhar. O que se estranha é a imobilidade de Bolsonaro diante desse quadro. Na verdade, Lula está se intrometendo onde não é chamado. Aliás, não precisa ser chamado para se intrometer em tudo. E assim ele vai seguindo rumo a 2022, ex-presidiário solto por manobra do STF, livre de qualquer condenação, como se fosse um cidadão do bem.