Nas manifestações de 1º de Maio, ninguém falou nos 12 milhões de desempregados no Brasil

Antigamente, os trabalhadores se reuniam nas praças públicas e faziam suas reivindicações, discursando sobre o trabalho no país e os problemas que enfrentavam para poder manter a família

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 02/05/2022 14h17 - Atualizado em 02/05/2022 14h23
Montagem de fotos/Reprodução/Twitter/CUT/Lucas Neves/Estadão Conteúdo Atos do Dia do Trabalho Manifestantes da esquerda e da direita se reuniram no Pacaembu e na Avenida Paulista neste domingo

O que dizer das comemorações do Dia do Trabalho ou Dia do Trabalhador? Houve duas comemorações: uma para o presidente Bolsonaro e outra para o ex-presidente Luiz Inácio, também ex-presidiário por corrupção. Houve um tempo neste país em que a comemoração do 1º de Maio não era assim. Os trabalhadores se reuniam nas praças públicas e faziam suas reivindicações, discursando sobre o trabalho no país e os problemas que enfrentavam para poder manter a família. Não é mais assim. Em São Paulo, como era de se esperar, a aglomeração ocorreu na Avenida Paulista, mostrando orgulhosamente (?) as cores verde e amarelo. De outro lado, aqueles sinistros balões da CUT, as bandeiras e bonés do MST e o pavilhão do PT, aquele partido que nasceu para defender a ética na política e promoveu, quando no poder, o maior escândalo de corrupção conhecido no mundo. E em que os dois grupos se diferenciam? Em nada. São iguais.

Até há algum tempo, o PT era tido como um seita. Ainda é. O mesmo ocorre agora com bolsonarismo. Transformou-se também em uma seita. E tudo é movido pelo ódio nesse meio. Os que se vestem de verde e amarelo transformaram a comemoração do Dia do Trabalho num ato contra o Supremo Tribunal Federal. E ficou por aí. Os auxiliares mais próximos de Bolsonaro aconselharam o presidente a não participar de nada. Mas em Brasília, Bolsonaro, sem fazer discurso, foi cumprimentar os que participavam da comemoração em sua homenagem, andando entre eles. Em Brasília, o mote maior foi pedir a ditadura de volta e nova edição do AI-5. Ocorre que só esse gesto do presidente que parece cordial, mas foi uma maneira de marcar presença contra do STF.

Em São Paulo, o público foi maior, também de verde e amarelo. A manifestação foi organizada por apoiadores de Bolsonaro e teve como objetivo defender o deputado federal Daniel Silveira, aquele que dizem ter sido preso porque usou seu direito de livre expressão. É impressionante e vergonhoso também que tal figura transformou-se de repente num herói nacional. Não vai demorar  para que até assassinatos serão justificados como um ato exercendo a livre expressão. Para São Paulo, Bolsonaro gravou um vídeo com as mesmas palavras de sempre, dizendo que “este é um governo que acredita em Deus, respeita as autoridades, defende a família e deve lealdade ao povo”. Mas o ato na avenida Paulista também foi contra contra o STF e a favor do AI-5 e de um governo militar. 

O Dia do Trabalho simplesmente não existiu neste 1º. de Maio. Quem falou em 12 milhões de desempregados e mais de 6 milhões que desistiram de procurar emprego? Quem falou nas quase 20 milhões de famílias que passam fome no Brasil porque não têm renda nenhuma para viver? Ninguém falou nada. Quanto à comemoração do PT, na Praça Charles Miller, foi organizada pelas centrais sindicais que preferiram chamar a manifestação de um “ato cultural”. Mas com o discurso de Lula, falando do mesmo jeito, desequilibrado e senhor de todas as verdades. Criticou o presidente Bolsonaro em tudo. Antes dele, alguns outros desconhecidos gritaram sua palavra de ordem. Quanto a Lula, o discurso é o mesmo dos anos de 1960. Essa gente não muda em nada, a ignorância em relação ao mundo e ao Brasil de hoje é absurda. Pararam no tempo. Luiz Inácio exige que lhe peçam desculpas por ter sido preso por corrupção, mesmo sendo apontado como o grande chefe da quadrilha que roubava como nunca o dinheiro público brasileiro. 

Esse é o retrato de tudo o que aconteceu no país inteiro. Houve manifestação a favor de Bolsonaro em todas as capitais brasileiras, menos Porto Velho. Contra Luiz Inácio os atos foram contrários em 16 capitais. Mas nada de alarmante. Na verdade verdadeira, todas realizadas por uma gente sem ânimo e demonstrando estar cansada de tudo. Uma manifestação verde e amarela aqui, outra manifestação vermelha ali, e a tarde foi passando, foi passando e passou. No que diz respeito a São Paulo, que pode ser o retrato do país, as manifestações terminaram de forma melancólica. Todo mundo foi para casa com suas bandeiras, as vermelhas e as verde e amarelo. E para alegrar um pouco o ambiente, no final do ato do PT na Praça Charles Miller, um conjunto tocava um rock para meia dúzia de gatos pingados com suas guitarras melancólicas.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.