Negacionismo é uma doença sem cura e já atinge milhares de pessoas

Ameaças à Anvisa devido à aprovação da vacinação de crianças é lamentável

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 20/12/2021 18h50 - Atualizado em 20/12/2021 18h54
Marcelo Camargo/Agência BrasilDiretores da Anvisa passaram a receber ameaças após a aprovação da vacinação de crianças

A tensão de sempre chegou a tal ponto que, neste domingo, 20, a Anvisa pediu proteção policial urgente aos seus diretores e servidores. Tudo começou com as ameaças feitas pelo presidente Bolsonaro aos técnicos da agência que aprovaram a vacinação em crianças de 5 a 11 anos, como se tivessem cometido um crime hediondo. Com novas ameaças de morte que os dirigentes passaram a receber, a Anvisa encaminhou o pedido de proteção policial ao Procurador Geral da República, Augusto Aras, e também à direção da Polícia Federal e ao Ministério da Justiça. O presidente da República é um sujeito que não deseja paz para o país que governa ou diz governar, não se sabe ao certo. Anda sempre à procura de qualquer motivo a fim de tumultuar um país que decisivamente está cansado dessa balbúrdia. Se não houver motivo nenhum, o presidente e seus apoiadores inventam. Uns indivíduos loucos por desordem. Assim, nada como começar uma nova segunda-feira no meio de uma guerra. Mas os conflitos brasileiros estão se tornando muito comuns para os guerreiros ávidos por lutas de insensatez. Fim da linha nessa dança de aberrações a que se reduziu o governo. O presidente Jair Bolsonaro, na sua cruzada fora do tempo e do espaço, ameaçou divulgar os nomes dos técnicos da Anvisa que aprovaram a vacina contra a Covid-19 para crianças. Como o lobo, Bolsonaro perde o pelo, mas não perde o vício.

O presidente diz estar conversando com a primeira-dama Michelle sobre a vacinação de sua filha de 11 anos. Ele ainda não sabe. É uma inversão de valores total. O negacionismo é uma doença sem cura e que atualmente atinge, além do presidente da República, milhares de pessoas desorientadas e atordoadas. Os que mais trabalham contra a vacina são alguns jornalistas que não têm o que mais fazer da vida. Chegam a dizer com todas as letras que a vacina mata. Não são capazes de ver o número de mortos no mundo e particularmente no Brasil, antes e depois da vacinação. A afronta à Anvisa, órgão brasileiro respeitado internacionalmente, foi feita neste final de semana em conversas com apoiadores e os assessores mais próximos que rezam pela cartilha presidencial. A vacina aprovada pelos técnicos da Anvisa é a da Pfizer. Usando as suas redes sociais, o presidente informou que pediu a lista dos técnicos para que todos tomem conhecimento dos nomes responsáveis pela aprovação. Uma ameaça covarde. 

Na sua live semanal de quinta-feira, 17, Bolsonaro disse que ainda não sabia se a vacina para crianças foi aprovada por diretores e até pelo presidente da Anvisa, que foi seu indicado para o cargo, almirante Antonio Barra Torres, que Bolsonaro tinha como aliado, mas está agindo de acordo com o que dita a ciência. O presidente afirmou que a população tem o direito de saber esses nomes, passando a impressão de que todos eles cometeram um crime. Segundo ele, cabe aos pais da criança decidir se elas devem ser vacinadas ou não. Mais ninguém. Na própria quinta-feira, a Anvisa publicou a portaria com a decisão da vacina da Pfizer para crianças, em edição extra do Diário Oficial da União.

A resolução já está em vigor e é assinada pelo gerente-geral de Medicamentos e Produtos Biológicos da Anvisa, Gustavo Mendes. Na sexta-feira, 18, a Associação dos servidores da Anvisa reagiu a essa insensatez presidencial. E não utilizou de meias palavras. Classificou de “abertamente fascistas” as declarações de Bolsonaro. Os servidores afirmaram que repudiam qualquer ameaça proferida pelo presidente contra o corpo técnico da Anvisa, bem como a quaisquer tentativas de intervenção sobre o posicionamento da autoridade sanitária que não advenham do debate estritamente científico e democrático. A diretoria da Anvisa denunciou que os servidores estão sofrendo ameaças de morte e outros crimes. A Associação dos servidores da Anvisa assinalou que os métodos de Bolsonaro são “abertamente fascistas, cujos resultados podem ser trágicos e violentos”. 

Até o momento, a Pfizer é a única vacina aprovada para aplicação em crianças. Bolsonaro, de cara, logo ao iniciar sua live, atacou a Anvisa, mas disse que não pode interferir nas suas decisões. Por isso, apenas pediu os nomes dos técnicos que aprovaram a vacina para divulgá-los. Chega a ser inacreditável que um presidente da República tenha tal comportamento. Cansado dessa conversa e ameaças absurdas, o ministro do STF, Ricardo Lewandowski, deu 48 horas para o governo explicar seus planos visando à vacinação das crianças. Aí, no sábado, 19, surgiu a figura do ‘cara-pálida’ ministro da Saúde, o servil Marcelo Queiroga, dizendo que não existe vacina no momento e tudo ficará para o ano que vem. Informou que exatamente no dia 5 de janeiro de 2022 o governo se pronunciará sobre o assunto, depois da realização de uma audiência pública que servirá de base para a decisão final. Já Bolsonaro repetiu mais uma vez que as vacinas que estão sendo utilizadas no mundo e no Brasil são “experimentais”, o que é uma grande mentira. Todas as vacinas aplicadas no Brasil e em outros países foram aprovadas em pesquisas rigorosas que atestaram sua segurança e eficiência. Então é isso que está acontecendo agora no que diz respeito à vacinação das crianças. Como o ministro já adiantou que o país não dispõe da vacina Pfizer, tudo ficará para o ano que vem. É lamentável. Estupidamente lamentável.  

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.