Ninguém morre de amores pelo STF, mas Barroso está certo ao falar que Brasil precisa de ‘choque de civilização’

Ministro do Supremo afirma, com razão, que o Brasil virou ‘um país de ofensas’; nova ordem parece ser insultar sempre o outro, sem qualquer consideração

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 04/07/2022 13h11
Nelson Jr./SCO/STF - 29/06/2021 Luís Roberto Barroos, de toga em sua mesa no STF, entrelaça as mãos, em gesto parecido com o de reza Luís Roberto Barroso se desentendeu com uma mulher durante evento na Inglaterra

As cenas hostis estão  se repetindo cada vez mais. Na quinta-feira, 30, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, esteve no Centro Integrado de Cultura, em Florianópolis, onde participou das comemorações dos 40 anos da fundação da Procuradoria Geral do Estado. Teve de sair pela porta dos fundos, diante das manifestações contra ele e, consequentemente,  o STF. Protegido por vários seguranças, entrou no carro e deixou rápido do local, diante de um grupo de pessoas com xingamentos impublicáveis. Isso vem se repetindo sempre com os ministros do Supremo, resultado de uma arrogância inaceitável de um tribunal que parece viver em outro mundo. Os ministros falam muito em civilização, mas essa civilização não chegou ainda à Corte. E tudo indica não chegará tão cedo. Os rumos são cada vez mais incertos. 

Alguém ainda morre de amores pelo STF? Este colunista, não. A exemplo de milhões de brasileiros, este colunista deixou de acreditar. Hoje o STF parece mais um partido político. Alguns ministros apresentam decisões que são uma afronta ao país. Mas eles estão lá, são hoje verdadeiras celebridades. Cada um defendendo, digamos, “ordens superiores”. Sim, ordens superiores. O STF não representa mais a palavra final sobre problemas do Brasil. Não. As celebridades votam de acordo com a conveniência. Há uma espécie de acordo no recinto chamado nobre do tribunal. Basta ver as duas indicações do presidente Jair Bolsonaro: Kassio Nunes Marques e André Mendonça. São ministros servis, que só têm compromisso com o governo, não com o país ou a verdade. As celebridades de toga vivem num mundo especial dentro do Brasil. 

No entanto, nem sempre, algumas dessas celebridades dizem coisas impossíveis de não aceitar. É o caso do mesmo ministro Luís Roberto Barroso que, no último dia 25, fez uma palestra no Brazil Forum UK, na Universidade de Oxford, Inglaterra. Barroso foi chamado de mentiroso por uma mulher que estava na plateia. Foi interrompido quando dizia que precisou impedir “o abominável retrocesso” que seria a volta do voto impresso com contagem pública manual, prática que chamou de “caminho da fraude”. Foi quando a mulher se levantou e o chamou de mentiroso. Mesmo com o mal-estar, o ministro do STF sugeriu que ela entrasse na internet e lesse o que o presidente Bolsonaro tem falado sobre as urnas eletrônicas para mobilizar sua base num tom golpista. Barroso observou que o pensamento conservador  no Brasil, que é legítimo, foi capturado pela grosseria. O ministro tem razão. É exatamente isso que acontece atualmente nesta terra que parece ser de ninguém.

O magistrado assinalou que é preciso ser capaz de discutir de forma educada, com respeito e consideração. “Viramos um país de ofensas”, disse Barroso. Quem poderá dizer o contrário? Ninguém. O Brasil se transformou mesmo num país sem princípios de civilidade. Barroso tem razão quando diz que falta ao Brasil um “choque de civilização”. Que é preciso trabalhar com a verdade e ter respeito. Que o Brasil não trabalha mais com fatos. Hoje as pessoas escolhem lados e criam narrativas para expor suas convicções, mas tudo na base do insulto. Hoje o Brasil é um país em que um indivíduo qualquer fala, em nome de Deus, “eu quero que você morra!”. É exatamente o que ocorre atualmente. Falta um respeito mínimo para discutir qualquer assunto. A nova ordem parece ser insultar sempre o outro, sem qualquer consideração. Falta civilidade, sim. Nos últimos anos, este fato vem se acentuando cada vez mais. As pessoas tornaram-se inimigas. Essa imagem de um país feliz, cheio de sorrisos em praias azuis e mulheres lindas, não diz a verdade. O que existe mesmo é um retrato sem retoque de um Brasil que preferiu a mazela como forma de vida, a começar pela maioria dos governantes.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.