O que está por trás do surgimento e das adesões aos manifestos em defesa da democracia?

‘Carta aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito’, da Faculdade de Direito da USP, já tem mais de 600 mil assinaturas, incluindo dez ex-ministros do STF

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 01/08/2022 13h38
Reprodução/Facebook/fdireitousp Fachada da faculdade de Direito da USP 'Carta aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito' foi organizada pela Faculdade de Direito da USP

De repente, começaram a surgir manifestos em defesa da democracia em todo lugar. O povo está enlouquecendo? Não. Existe mesmo um ar de golpe pairando sobre nossas cabeças. O país está se prevenindo. Só se fala em defesa da democracia. Isso nasceu do nada? Evidentemente que não. O que acontece nos subterrâneos do país é assustador. Mas o Brasil é um país em que tudo vaza. E essas manobras contra a democracia vazaram. De todos os manifestos que percorrem o país, o mais falado é a “carta aos brasileiros”, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. O da OAB veio depois, assim como o dos empresários. Todos em defesa da democracia. Sabe-se que o presidente Jair Bolsonaro está bastante irritado. Ele continua a ironizar as manifestações em favor da democracia no Brasil. Deve achar engraçado. Mas não tem graça nenhuma. A verdade é que esses manifestos começaram a aparecer em todo lugar com grande adesão. Qual é o significado disso? Significa que o país vive, sim, sob a articulação de um golpe. Parece exagero afirmar algo assim. Não é exagero. Basta prestar mais atenção em alguns fatos que se tornaram comuns entre nós. Se esse perigo não rondasse o Brasil, essas manifestações não insistiriam tanto num assunto de triste lembrança no país. Pensando bem, o palco está armado. Dar um golpe agora será até fácil. Os demônios do golpismo talvez estejam esperando mais um pouco. Essa história começou de maneira mais decisiva com os ataques de Bolsonaro à Justiça Eleitoral e às urnas eletrônicas das eleições. Piorou de vez quando o presidente resolveu reunir diplomatas estrangeiros para falar mal do Brasil, fato inédito na história nacional. Um presidente que reúne representantes de dezenas de nações para criticar o próprio país. Não tem cabimento.

O abaixo-assinado organizado por juristas e pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP, com o título “Carta aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito”, já tem mais de 600 mil assinaturas em sete dias, incluindo dez ex-ministros do Supremo Tribunal Federal. E outro manifesto do meio econômico, com a mesma aceitação, foi organizado pela Fiesp e recebeu a adesão da Federação Brasileira de Bancos, a Febraban. Ao referir-se à carta aos brasileiros de juristas e da Faculdade de Direito da USP, Bolsonaro disse, na quarta-feira, 27, durante a convenção do PP, que o Brasil não precisa de uma “cartinha”, para defender sua democracia. Na noite de quinta-feira, 28, o presidente ironizou e postou nas redes sociais somente uma frase lacônica, demonstrando bem o que pensa a respeito: Escreveu apenas: “Por meio desta, manifesto que sou a favor da democracia. Assinado, Jair Messias Bolsonaro, presidente da República Federativa do Brasil”. A seguir, postou noite adentro diversas vezes frases semelhantes e irônicas. O deboche de sempre.

No fundo, Bolsonaro deve estar bem informado sobre o que a sociedade brasileira passou a pensar depois que ele teve a desfaçatez de reunir embaixadores de dezenas de países para detonar o Brasil e o processo eleitoral. Ele sabe que seu isolamento cresce cada vez mais. Poucos ainda dão ouvidos às ameaças e acusações sem prova de Bolsonaro. Ainda nessa quinta-feira, em sua live semanal, o presidente também se manifestou sobre a carta aos brasileiros, dizendo que não compreendia qual era o medo dos signatários. Observou que em três anos e meio de governo nunca fez nenhum alarmismo, nunca falou em censurar a imprensa, em controlar as mídias sociais. Disse então uma frase enigmática, em forma de pergunta: “Olha, é melhor democracia com o ladrão do que o outro regime com o honesto?” Bolsonaro adiantou que todos podem ficar tranquilos porque ele não representa nenhuma ameaça de golpe. Numa postagem na madrugada de sexta-feira, 29, o presidente observou que não financia ditaduras comunistas da América Latina nem mantém diálogo com narcotraficantes. “Precisa disso para ser chamado de democrata?”, perguntou. Ficou olhando para a câmera e acrescentou ser preciso, sim, respeitar a Constituição. Evidentemente, esse assunto vai longe. Bolsonaro finge que não, mas o assunto é sério. Não é hora de fazer gracinha. 

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.