Os brasileiros merecem respeito, mas isso é artigo de luxo na política sórdida do país

Bolsonaro nem procurou se informar sobre o motivo da morte que pausou testes da CoronaVac, é a insensatez completa; o comportamento da Anvisa não tem uma explicação razoável

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 11/11/2020 11h48 - Atualizado em 11/11/2020 12h16
GOVESP/Divulgação/28.10.2020Testes da CoronaVac tinham sido suspensos na última segunda-feira, após 'evento adverso grave'; retomada de estudos foi autorizada

É inconcebível ver um presidente da República comemorar a morte de uma pessoa que testou a vacina CoronaVac, desenvolvida por uma farmacêutica chinesa em conjunto com o Instituto Butantan, em São Paulo. Ao comemorar, sem ao menos se informar como essa morte ocorreu, Bolsonaro afirmou que ganhou do governador João Doria. Que baixeza é essa? Isso é digno de um presidente da República, seja ele quem for? E que presidente é esse? Vivemos tempos inacreditáveis. Falta civilidade. Na questão da vacina, o que vale mesmo é a política. Um jogo perverso. Insano. Assustador. Isso não chega a revoltar, porque a indignação é muito maior.

O comportamento da Anvisa não tem uma explicação razoável. A não ser que esteja politizada também. É o máximo da insensatez. Então fica estabelecido – quem sabe por decreto? – que uma vacina eficiente pode não significar nada, dependendo do governo. O que importa mesmo a Bolsonaro é sua briga com João Doria. O resto é só o resto. Com a morte, a Anvisa suspendeu os testes que vinham sendo feitos com a CoronaVac. Está correto. Mas não levou em consideração necessária as circunstâncias do óbito, o que é escandaloso. É criminoso. O Instituto Butantan soube da suspensão dos testes pela imprensa. Não pode.

Politizando completamente essa questão da vacina, vejam o que Bolsonaro escreveu no Twitter, assim que soube da morte do voluntário: “Morte. Invalidez. Anomalia. Essa é a vacina que o Dória quer obrigar todos os paulistanos a tomar. Mais uma vez, Jair Bolsonaro ganha”. PQP! “Mais uma vez Jair Bolsonaro ganha.” O que é isso? Mas o que é isso? Bolsonaro, presidente da República, nem procurou se informar sobre o motivo da morte. Assim são as cenas brasileiras atuais. É a insensatez completa. Isso Bolsonaro deixou claro desde o início da chegada do vírus chinês. Foi contra o uso de máscaras, recomendava o uso da cloroquina para todo mundo, zombou de governadores e prefeitos, debochou o distanciamento social e qualquer outra medida de combate à doença. O super-homem. O magnânimo. A Anvisa, por seu lado, está mal nessa história e pode perder a credibilidade. Tudo indica que se deixou contaminar com essa conversa criminosa do dia a dia.

O problema de Bolsonaro é a reeleição em 2022. A morte do voluntário que tomou a vacina nada tem a ver com a vacina. Tratou-se de um suicídio. O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, sabia a razão do óbito, mas evitou informar. Explicou: “Os dados são transparentes. Por que nós sabemos e temos a certeza de que não é um evento relacionado à vacina. Como eu disse, do ponto de vista clínico do caso e nós não podemos dar detalhes, infelizmente, é impossível, é impossível que haja relacionamento desse evento com a vacina, impossível, eu acho que essa definição encerra um pouco essa discussão”. O incrível é que a Anvisa já tinha essa informação de suicídio do voluntário. E mesmo assim suspendeu os testes com a CoronaVac, para a alegria e deslumbramento do presidente da República Jair Bolsonaro.

Diante desse descalabro, Dimas Covas assinalou: “Neste momento cabe à Anvisa, que tem todos os dados, dar essas informações. Nós não podemos aqui burlar a ética, trair a confiança que a família do voluntário tem em nós. Nós não podemos dizer qual foi o motivo do evento, o que levou ao evento, porque essas informações podem ser muito dolorosas para a família e nós temos que respeitar esse aspecto. O que nós dizemos eu repito: o evento não tem relação com a vacina”. Já a Anvisa afirma que precisa avaliar os dados e julgar os riscos/benefícios da continuidade dos estudos que estão sendo realizados. A farmacêutica chinesa Sinovac, responsável pelo desenvolvimento da CoronaVac, observa que o estudo clínico em fase 3 no Brasil é realizado estritamente de acordo com os requisitos científicos internacionais. A entrevista concedida nesta terça-feira, 10, foi constrangedora. Uma coisa vergonhosa. Ficou no ar uma impressão absurda. É mais ou menos assim: se um voluntário que tomou a vacina morrer atropelado, os testes serão suspensos. É um jogo sórdido. Jogo sujo mesmo.

Bolsonaro politizou a vacina para confrontar um possível adversário em 2022. Isto aqui é o Brasil. O governo de São Paulo afirma que se trata de uma guerra política em que, pelo visto, vale tudo. No Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, Bolsonaro é chamado de “médico e patriarca”. Sabe-se que no Palácio do Planalto, em Brasília, até integrantes do governo foram pegos de surpresa pela decisão da Anvisa de suspender os testes com a vacina. Dimas Covas assinala que essa suspensão é totalmente desnecessária e acaba causando dor e muito sofrimento aos voluntários. Acima do bem e do mal, Bolsonaro não se mostra preocupado. Ao saber da morte do voluntário, foi logo ao seu Twitter para escrever sua mensagem descabida. Os brasileiros merecem respeito. Mas respeito é artigo de luxo que está em falta no mercado da política sórdida do país.