Poderosos tentam destruir tudo de bom que a Lava Jato fez pelo Brasil

Operação coordenada pelo procurador Deltan Dallagnol acabou com a farra do dinheiro público, mas, graças a manobras indecentes do STF, corruptos que lesaram o país estão soltos

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 06/04/2021 16h23
André Dusek/Estadão ConteúdoMesmo após ataques à Lava Jato, o procurador Deltan Dallagnol ainda acredita no combate à corrupção

Enganam-se os que pensam que a Operação Lava Jato acabou. Não acabou e tem muito a fazer ainda no país. São palavras do ex-coordenador da força-tarefa em Curitiba, Deltan Dallagnol, ao ser entrevistado no programa “Direto ao Ponto”, da Jovem Pan, dirigido e apresentado pelo jornalista Augusto Nunes. Valeu a veemência das declarações de Dallagnol, de quem se acredita que ainda é possível salvar o Brasil da corrupção que faz parte de sua história. Uma terra onde o Judiciário se encarrega de pôr nas ruas os corruptos presos, com manobras indecentes de alguns ministros do sinistro STF que agem como se fossem os donos do país.

Dallagnol tem razão ao dizer que o Brasil vive agora um período em que os poderosos tentam destruir tudo de bom que a Lava Jato fez pelo Brasil. É próprio dos fora da lei. A verdade é uma só, para quem quiser ver: os crimes não acabaram e as investigações continuam. Deltan diz discordar das decisões do STF em relação a alguns criminosos alcançados pela operação. Decisões suspeitas. Graças a esse tribunal melancólico, o ex-presidiário Luiz Inácio da Silva está solto, o que representou um tiro na dignidade de tantos que querem um Brasil honesto e daqueles que ainda conseguem pensar no país. Está solto, candidato à presidência da República. Um corrupto dos maiores surgidos na história brasileira, traidor de si mesmo.

O procurador observou no programa da Jovem Pan que a Lava Jato foi dura, é verdade, mas aplicou a lei como a lei deve ser aplicada. Dizer que houve um tratamento diferenciado com o ex-presidente e ex-presidiário Lula chega a ser um ato repugnante, que não cabe num país que se quer civilizado. Um país civilizado tem uma Justiça que não vive de invenções e festividades. No STF, todos são celebridades que estão sempre na televisão, dando entrevistas até sobre amenidades. Com Lula, apenas aplicou-se a lei, nada além disso. E é para isso que as leis existem. Seja como for, Dallagnol prefere não falar muito sobre o assunto, porque teme dar material à defesa do ex-presidiário que teve suas condenações anuladas, como num passe de mágica. E neste pobre país se aceita tudo. Como se tudo fosse normal. Não é.

O STF tem o dever que defender a Constituição do país, não se politizar. Os corruptos poderosos chegam a dizer que querem Dallagnol na cadeia, como se isso pudesse ser resolvido por alguns delinquentes vestidos de toga, como se fossem capazes de tudo. Não são. Para prender alguém, é preciso que haja um crime. Que crime cometeu o ex-coordenador da Lava Jato? Existe atualmente no país uma inversão de valores que revela nossa miséria cultural. A ordem é criminalizar os investigadores da Lava Jato, que entraram nos becos da ladroagem e prenderam aqueles que precisavam ser presos como ladrões do dinheiro público. É assim que funciona. O crime dos investigadores, particularmente de Deltan, existe somente nas cabeças doentes de alguns que manejam o poder — e fazem desse poder o que existe de pior para o país. Para isso vale tudo, até mesmo gravações ilegais conseguidas por hackers que agiram como bandidos, ninguém sabe a mando de quem, numa história que nunca se explicou.

Dallagnol afirmou que está preocupado com a democracia brasileira, em perigo com declarações inconsequentes do presidente da República, que agora põe em dúvida o resultado das eleições presidenciais de 2022. O procurador se inquieta também com a excessiva militarização do governo, seguida de bravatas que não cabem mais neste país. E assim vamos caminhando, trilhando pela insegurança jurídica instalada no Brasil por decisões questionáveis. Os grandes escândalos de corrupção – especialmente o assalto à Petrobras – vão ficando num segundo plano, com todo mundo livre. O que nos resta é uma imensa sensação de vergonha neste país que sempre está perdido num labirinto. Pior: muitos desses labirintos não têm saída.