Políticos falam aos montes, mas não dizem uma palavra sobre os milhões que passam fome no Brasil

Prato da fome hoje é feito com alimentos doados ou encontrados no lixo, mas governantes fecham os olhos em seus castelos e fazem de conta que não têm nada com isso

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 24/09/2021 13h32
Estadão Conteúdo/ArquivoSegundo dados da Rede Penssan, 19 milhões de brasileiros passam fome no Brasil

Isto faltou dizer. Acho que se esqueceu. Nenhuma palavra. Estamos bem perto da guerra civil. Ainda bem que está todo mundo armado. Pelo menos é isso que estão procurando aqueles que “governam” este país. Uma guerra civil agora seria ótimo, cada um quer o seu pedaço do país. Como se o país fosse uma coisa qualquer. Eles fazem o que bem entendem do Brasil. Esquerda, direita, centro, do alto, do baixo, todos querem uma lasca. Seria bom lembrar a agonia de um país que aos poucos vai perdendo sua autoestima e tende a ser no mapa um lugar qualquer. Mas nesse lugar qualquer existe um povo de mais de 20 milhões de pessoas que passa fome. Simplesmente não têm o que comer. Sem contar os 14 milhões de desempregados e os 6 milhões que desistiram de procurar trabalho. Isso faltou dizer. O melhor mesmo é comprar um fuzil do que um pouco de feijão. E eles continuam a discutir política com insultos e ofensas de todos os tipos. Somos um país que vive de provocações.

O prato da fome no Brasil hoje é feito com alimentos doados ou encontrados no lixo das feiras-livres, das residências ou dos restaurantes. No castelo em que sempre estão, eles fecham os olhos a essa realidade perversa. Eles fazem de conta que não têm nada com isso. Em 2013, o problema da fome no país estava mais ou menos equilibrado e foi se agravando a cada ano. Na pandemia, o prato vazio se escancarou na pequena mesa rústica da fome que aumenta cada vez mais. E eles continuam discutindo política e manobras entre os poderes. É um país sem governo. Em várias regiões do país, uma imensa fila de mulheres raspam os ossos agora vendidos pelos açougues para colocar na água. Isso começou em Cuiabá. Depois a fila foi para outras cidades. No litoral do Ceará, as famílias recolhem nos sinais de trânsito um pouco de comida para dar aos filhos. Em Manaus, dezenas de famílias dependem do peixe doado pelas igrejas. Às vezes conseguem um pacote de macarrão e algumas salsichas, o que representa uma festa. No entanto, isso não satisfaz as necessidades mínimas do corpo humano. É assim em todo o país.

Na Ceagesp, em São Paulo, uma multidão procura alimentos nas caçambas do lixo que, mesmos estragados, vão garantir um pouco de comida à família, conforme mostra reportagem do jornal O Globo. As pessoas recolhem abobrinhas, batatas, cenouras, chuchus, folhas de couve-flor, pepinos e tomates. Há sempre um pedacinho desses legumes que dá para comer. Pior de tudo é que os seguranças da Ceagesp não permitem a presença dos catadores. As coletas são feitas clandestinamente. As famílias dizem que sentem vergonha de procurar comida no lixo. Mas não existe outra alternativa. Muitos recebem o auxílio emergencial de R$ 150, que mal dá para pagar a conta de água e luz. Não sobra nada para a alimentação. É chocante ver seres humanos disputando alimentos no lixo com ratos.

Coisas assim só ocorrem em tempo de guerra. E eles continuam discutindo. E eles continuam fazendo discursos. Eles continuam fazendo provocações uns aos outros defendendo o seu, que é o que interessa. De 2014 a 2019, o número de famílias que perderam a renda completamente aumentou de 17% para 30%. A renda média do trabalhador, incluindo desempregados e informais, caiu 11% de 2020 a 2021. Para os pobres, a queda foi de 21%. São mais de 19 milhões de pessoas que passam fome no Brasil, em extremo estado de pobreza. E eles fazem de conta que não sabem. Continuam discutindo. Todo dia o Brasil tem um assunto novo para aumentar a discórdia. Estamos perto da guerra civil. Todos eles fazem discursos. Falam, falam, falam. Não param de falar. As crianças com fome não sabem disso. Mas elas vão crescer.