Que palhaços, mágicos e domadores me perdoem, mas a CPI da Covid-19 parece um circo

Tudo vira brincadeira, com os senadores de oposição com sede de sangue, os de situação dispostos a morrer por Bolsonaro, e os ministros mal sabem o que foram fazer lá

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 10/05/2021 13h43 - Atualizado em 10/05/2021 13h57
Frederico Brasil/Futura Press/Estadão Conteúdo - 05/05/2021 Ao lado de Randolfe Rodrigues (à dir.), vice-presidente da CPI, o ex-ministro Nelson Teich fala sobre sua gestão no Ministério da Saúde

A semana que passou foi engraçada. Chegou a lembrar a infância, quando o circo chegava no bairro. Os circos praticamente desapareceram. Mas tem a CPI da Covid-19. E a CPI é um espetáculo de esperteza e pouco caso à população. Não é engraçado, mas a gente pode sentir até aonde os políticos podem chegar. Não é engraçado, mas é divertido. Aquele jogo de interesses, aquele conversa de sempre, aquela mesma gente fingindo defender a população. A começar com aquela briga das senadoras que se diziam excluídas. Uma discussão circense mesmo. Só faltou agressão física, puxada de cabelo, mordidas, coisas assim. E depois, o depoimento do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que compareceu à comissão unicamente para se promover para uma jogada futura. Mas ele disse algo verdadeiro: que passou a dar entrevistas todos os dias porque o governo nunca se preocupou em criar uma campanha oficial de informações sobre a Covid-19 para a sociedade. Mandetta, então, entrou nessa brecha, o que despertou a ira do presidente da República, e o ministro acabou demitido.

Mandetta afirmou que o normal, quando se tem uma doença infecciosa, é fazer uma campanha institucional de orientação. Só que uma campanha assim é uma iniciativa inaceitável para Bolsonaro, porque o que vale é a palavra dele, de mais ninguém, mesmo fugindo completamente da realidade do que está acontecendo. E houve um momento em que o presidente passou a exigir que Mandetta falasse sobre o número de pessoas curadas, o que ele atendeu. O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB), aquele, também fez perguntas, mas todas as vezes dando um jeito de complicar o governo de alguma maneira. Conseguiu. Num momento do depoimento, o ex-ministro disse que informou Bolsonaro que ele deveria mudar seu posicionamento para não criar, em pouco tempo, uma situação de colapso no sistema hospitalar brasileiro. Entrou por um ouvido e saiu pelo outro. A seguir, o ex-deputado se limitou a responder às perguntas dos senadores com evasivas ou algum discursinho promocional.

No outro dia, foi a vez do também ex-ministro da Saúde Nelson Teich, que se apresentou como um passarinho doente na chuva. Até hoje, Teich não compreendeu como e por que virou ministro. Caiu no governo de paraquedas. Só que chegou como se o paraquedas não tivesse funcionado. Encolhido, ele passou a responder sobre os 28 dias em que permaneceu no cargo. Nesse ponto, a CPI da Covid-19 passou a ser a CPI da Cloroquina. E Nelson Teich acabou escapando de todas as perguntas. Os senadores perguntavam uma coisa e ele respondia outra. Primeiro disse que saiu porque o presidente exigiu que ele recomendasse medicamentes sem nenhuma eficácia comprovada contra o coronavírus, que é o caso da cloroquina. E essa cobrança de Bolsonaro passou a ser diária, ao mesmo tempo em que criticava o distanciamento social. Diante disso, o médico oncologista decidiu pedir demissão, porque não aguentava mais ouvir falar em cloroquina. Disse também que saiu do governo porque não tinha autonomia nenhuma como ministro da Saúde.

Renan Calheiros então aproveitou para fazer perguntas embaraçosas, a fim de comprometer o governo até na produção de cloroquina para distribuir à população. Teich só dizia que não sabia de nada. No final, ninguém sabia de nada, nem explicar ao certo por que o ex-ministro foi depor na CPI. Nem ele mesmo, encolhido, quase escondido atrás do microfone, sem dizer algo que chamasse a atenção de alguém. Mas o grande dia do circo da CPI estava marcado para quinta-feira,6, com o depoimento do atual ministro Marcelo Queiroga, que durou mais de seis horas. Foi deslumbrante. O cardiologista revelou-se não um ministro da Saúde, mas um defensor das ideias de Bolsonaro para o combate à Covid-19. Nem parecia um médico. Era, sim, um tecnocrata do governo falando aos senadores, que chegaram a ser irritar várias vezes durante o depoimento. Afinal, o que Queiroga foi fazer na CPI? Aliás, ele disse que não era capaz de responder a certas perguntas, especialmente as que abordassem a compra de vacinas, legislação e uso da cloroquina. Sobre essas questões, não responderia nada.

Várias vezes, o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD), pediu que o ministro respondesse claramente às perguntas e parasse de ser evasivo. Se não fosse assim, daria um ponto final à sessão. Que pelo menos respondesse apenas falando “sim” ou “não”. E não ficar com aquela lengalenga, balbuciando em defesa do governo, como um servil que não honra o cargo que ocupa neste período difícil de pandemia. Queiroga afirmou que seu papel como ministro da Saúde não é ser crítico das ações do presidente da República ou de qualquer outro integrante do governo. Renan Calheiros, como um vampiro sanguinário, enfiou os dentes na jugular do ministro para ver se tirava dele algumas palavras sobre a cloroquina. Mas Queiroga se esquivou como podia. Só não se enfiou debaixo da mesa de trabalhos porque não ficaria bem. Aí seria demais! Então, ficou lá respondendo às perguntas, dizendo coisas incompreensíveis.

Em certo momento, Queiroga afirmou que os senadores deveriam compreender sua opção de não responder determinadas questões. Disse que não sabe se o Ministério da Saúde, do qual é responsável, tem distribuído cloroquina. Ele não sabe. No final daquela pantomima, o ministro deixou a impressão de que não sabe de absolutamente nada. Para falar a verdade, ele nem sabe se de fato é ministro da Saúde. Sua única preocupação ao depor na CPI foi a de não dizer nada que pudesse desagradar Bolsonaro e que é um subordinado que faz qualquer negócio para permanecer no cargo. A CPI é um circo, e o circo deve desculpar este colunista pela comparação. Aquilo tudo parece uma brincadeira, de senadores da oposição, com sede de matar alguém, e da situação, dispostos a morrer por Bolsonaro. No fim de tudo, e na verdade, aquilo tudo é lastimável, um retrato de um país caindo aos pedaços, complemente sem rumo, em discussões que são de enlouquecer a pessoas que ainda guardam alguma seriedade dentro de si.