Queiroz vai virar marchinha de carnaval ou até mesmo enredo de escola de samba

Ex-assessor de Flávio Bolsonaro, preso acusado de participar de um esquema de ‘rachadinha’, participou dos atos de Sete de Setembro e circulou entre os manifestantes com desenvoltura

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 08/09/2021 14h16
Reprodução/twitter/guilhermeboulosQueiroz participou das manifestações de 7 de setembro no Rio de Janeiro

O Sete de Setembro passou, mas não passou em branco. Temos um novo herói nacional, Fabrício Queiroz, aquele da “rachadinha”. Hoje é quarta-feira, dia 8. Parece que estamos todos vivos. Quem certamente não está vivo é o país. Entre as cenas do Sete de Setembro destacam-se os dois discursos do presidente da República. É mesmo desejar subverter a ordem das coisas. Afinal, o que deseja o presidente? Desta vez o tom de ameaça foi além do limite. Mas há algo que passou quase despercebido nas manifestações do Sete de Setembro nesta terça-feira, 7. No ato realizado no Rio de Janeiro, uma figura foi saudada pelos bolsonaristas como um verdadeiro herói. Usando uma camisa da Seleção Brasileira de Futebol, foi abraçado, beijado, fez selfies com homens, mulheres, crianças, casais, um espetáculo à parte. Mas que povo é esse? Sorridente, óculos escuros e feliz da vida, caminhou entre os manifestantes com desenvoltura.

Trata-se de Fabrício Queiroz, o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Patriotas). Queiroz é acusado de ser o chefe da chamada “rachadinha” do então deputado estadual no Rio de Janeiro, hoje senador, Flávio Bolsonaro. Queiroz é policial reformado que está sendo investigado juntamente com seu antigo chefe. No ano passado, Fabrício Queiroz chegou a ser preso,  mas beneficiado com a prisão domiciliar depois de algum tempo, junto com sua mulher, usando tornozeleira eletrônica. Passava bom tempo na varanda de seu apartamento com um belo copo de cerveja na mão, camiseta, bermuda, tênis. Eis o Queiroz preso em seu apartamento. Depois, teve a prisão revogada em março pela Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça. Foi uma maravilha. Vários funcionários da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro lotados no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro eram obrigados a entregar a Queiroz até 90% do salário, segundo investigação. A “rachadinha” rendia um bom dinheiro para o hoje senador, tudo administrado por Fabrício Queiroz, um funcionário dedicado de Flávio Bolsonaro.

Não faz muito tempo que Queiroz mandou um recado a quem interessasse, e nessa lista constava até o nome do presidente da República. Queiroz queixou-se pelas redes sociais que estava se sentindo abandonado. E que ia cair nas suas costas todas as falcatruas cometidas pelo seu chefe, hoje senador da Republica Federativa do Brasil. Ah, no mesmo dia foi procurado para alguns afagos, alguns carinhos afetuosos, até beijinhos no rosto. Ganhou até a liberdade. Mas foi coincidência, não é mesmo? Mero acaso. E nesta terça-feira do Sete de Setembro, Queiroz  participou da manifestação a favor do presidente Bolsonaro em Copacabana. Bem, quando um sujeito assim vira herói, o país deve estar doente. Não tem cabimento. Foi abraçado por todo mundo que encontrava na frente.

Num país doente, na verdade, coisas assim chegam a ser normais. Depois dos discursos ameaçadores do presidente Bolsonaro, nada mais poderia acontecer. Mas aconteceu e passou mais ou menos batido. Eis o Queiroz de volta. Se for candidato a deputado, ganha fácil. O caixa do então deputado estadual Flávio Bolsonaro está com a bola toda, para a vergonha de todos aqueles que trabalham sério na vida. O Brasil é um país inacreditável. Não há como explicar o Brasil. Certamente Queiroz vai virar marchinha de carnaval ou até mesmo enredo de escola de samba. De agora em diante, vai participar de festas para bacanas, será recebido com sorrisos e honras, abraços e beijos. Vida boa a do Queiroz, o novo herói nacional. Ele sabe que sua proteção é especial. Não deve se preocupar com nada. Transformado em herói, nada tem a temer.