Quem Bolsonaro quis intimidar com desfile de tanques militares em Brasília?

Evento foi ato repulsivo à democracia que, apesar de respirar por aparelhos, ainda está viva no país

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 12/08/2021 14h15
GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDODesfile de carros blindados da Marinha foi acompanhado por Bolsonaro e ministros

O Brasil é um país onde as coisas passam rápido demais e vão para o esquecimento. O que ontem soou como um espanto, hoje ninguém mais lembra. No entanto, há fatos que não podem ser esquecidos assim com tanta facilidade, pelo que representam. Na verdade, são sinalizações que não podem ser ignoradas. Faço essa pequena introdução quase literária para perguntar: Qual teria sido a intenção do presidente Jair Bolsonaro ao aceitar ou permitir aquele desfile de tanques da Marinha em Brasília? Atrevo-me a dizer que faz parte de uma ameaça. Foi constrangedor. As palavras do comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Almir Garnier Santos, tentando explicar o desfile, foram lastimáveis. O comandante falava ao país, mas certamente pensava que se dirigia a um jardim da infância. Foi tudo lamentável. Essa ideia só pode ter nascido de alguém que deseja virar o país de ponta à cabeça. Seria o anúncio de um golpe? Intimidação? Nem dá para explicar essa insensatez que ganhou o noticiário internacional. E assistindo ao desfile descabido, lá estavam o ministro da Defesa, general Braga Netto, e os comandantes das três armas, além de uma porção de ministros.

O presidente do STF, Luiz Fux, foi convidado, mas não compareceu porque ele não é louco. Igualmente os presidentes da Câmara e do Senado. O vice-presidente Hamilton Mourão não foi convidado. Um espetáculo promovido por gente que tem a inconsequência como norma de vida. O historiador que se dedica a analisar a participação dos militares na política brasileira, José Murilo de Carvalho, diz que a atuação da Marinha naquele show melancólico surpreendeu por ser a Força mais profissionalizada do Brasil. Autor do livro “Forças Armadas e Política no Brasil”, Murilo de Carvalho afirma que “tropa circundando o Congresso é mau agouro”. O historiador não vê condições de um golpe no país, até porque Bolsonaro não seria unânime no comando das Forças Armadas. Muitos oficiais da ativa cultivam sérias reservas sobre a conduta do presidente da República.

Murilo Carvalho acredita que aquele espetáculo foi organizado pelo ministro da Defesa. Afirma que o evento fez lembrar 12 de novembro de 1823, quando D. Pedro I fechou a Assembleia Constituinte. Lembrou, também, 10 de novembro de 1937, quando Getúlio Vargas fechou o Congresso. Em entrevista ao jornal O Globo nesta quarta-feira, 11, o historiador observou que um golpe agora só com o apoio unânime ou amplamente majoritário dos Altos Comandos das três Forças. Ele acredita que atualmente existe uma linha dura que hoje cerca o presidente. Mas há, também, os moderados que ainda conseguem pensar. Foi mesmo uma exibição para demonstrar força. Que força? Com aquela exibição, o presidente quer intimidar quem? Toda aquela cena inconveniente para entregar um simples convite ao presidente da República. Foi, na verdade, mais uma demonstração de desequilíbrio. Um ato repulsivo à democracia que, por enquanto, está viva no país. Até quando? Não se sabe. Respirando por aparelhos, mas ainda está viva.