Realização da Copa América no Brasil representa a volta da política de pão e circo

Argentina, Colômbia, Equador, Chile, Uruguai e Paraguai se negaram a sediar o evento devido ao agravamento da pandemia, mas o o governo, aparentemente, acredita que aqui está tudo controlado

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 01/06/2021 11h38 - Atualizado em 01/06/2021 17h13
Antonio Cruz/Agência BrasilA Arena Pantanal pode ser uma das sedes da Copa América no Brasil

Tudo indica que a irresponsabilidade e a insensatez ainda não venceram. A Copa América ainda não está marcada para ser realizada no Brasil. Ainda não. Isso deve ser decidido nesta terça-feira, 1, embora o presidente da Conmebol, Alejandro Dominguez, e o presidente Jair Bolsonaro tenham engatado um namoro firme, com muitas juras de amor. Está certo, o Brasil está caindo aos pedaços, mas não faz mal. É mesmo a política de pão e circo. Tendo circo e um pouco de pão está tudo correto. De forma que Bolsonaro e Dominguez estão conversando sobre essa leviandade, mas ainda não chegaram num acordo de casamento. Faz tempo que as vozes sensatas do Brasil deixaram de ser ouvidas. Junto do presidente Bolsonaro vivem aqueles parasitas que conseguem tudo o que desejam. Sabe-se que Bolsonaro gostou da ideia. Que coisa linda a Copa América no Brasil! Na conversa que Bolsonaro e Alejandro Dominguez tiveram nesta segunda-feira, 31, o presidente da Conmebol comunicou ao presidente brasileiro que considera suficiente o protocolo da CBF, mas prefere adotar o da Conmebol. Foi uma conversa repleta de amabilidade e oferecimento de flores e frascos de perfume como prova de amor.

Dominguez adiantou que utilizará o mesmo protocolo da Libertadores da América e da Copa Sul-Americana, que tem uma eficácia de 99%. Uma maravilha! A Argentina, a Colômbia, o Equador, o Chile, o Uruguai e o Paraguai se negaram a sediar a Copa América devido ao agravamento da pandemia. Mas como o Brasil vive um grande momento de paz, com tudo sob controle, optou-se em realizar a Copa aqui, já que a pandemia está totalmente dominada, o coronavírus desapareceu, os hospitais funcionam normalmente, as UTIs nem são mais necessárias, não faltam medicamentos, está tudo bem com o Brasil. Tudo ótimo! O Brasil é um paraíso! A pandemia é uma coisa do passado, como a gripe espanhola de 1918. Acabou. Por esse motivo, a Conmebol já tem o Brasil como certo para sediar a Copa América. Mas não é bem assim. No início da noite desta segunda-feira, 31, o ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, concedeu uma entrevista como se estivesse fazendo um pronunciamento importantíssimo para a nação. Diante de um microfone solene, o general deu a entender que está tudo certo e que o Brasil oferecerá somente a estrutura para o evento. Realmente, o Brasil dispõe dessa estrutura, basta ver os restos da Copa do Mundo de 2014, os grandes estádios construídos com muito dinheiro e que hoje estão entregue às baratas.

Ah, o general também exigiu que todos os jogadores das seleções que participarão do torneio estejam vacinados contra a Covid-19. Mas ninguém ainda sabe ainda de onde virão as vacinas. Certamente aqui no Brasil, já que o Brasil é um país generoso e as doses estão sobrando. E a política de pão e circo implica que seja assim. O general Luiz Eduardo Ramos falou, falou, falou, como se estivesse numa cerimônia de gala, mas não informou se o acordo já está fechado. O general adiantou que entregará à CBF a função de escolher os Estados onde a Copa poderá ser realizada. Tinha-se como certa a participação de Pernambuco. Mas Pernambuco saiu fora, a exemplo de Minas Gerais. Aqui não, disseram as autoridades desses Estados, observando que não dispõem de um cenário epidemiológico à altura. Aqui não! Já o secretário nacional dos Esportes, Marcelo Reis Magalhães, aproveitou aquele microfone ali na sua frente e deu também sua palavrinha em relação ao evento, minimizando a participação do governo federal na Copa. O governo federal apenas dará a estrutura para a entrada das equipes no país. Mais nada. O general Ramos, por seu lado, criticou aqueles que são contra o certame no Brasil, dizendo que aqui tem jogo de futebol quase todo dia. Por isso ele não entende por que tanta gente está contra a Copa América no Brasil.

Seja como for, a Copa América no país já tem até um mascote com o nome de “Cloroquito”. É um caixão chutando o coronavíus em forma de uma bola cheia daquelas coisas medonhas, como vem sendo retratado pela imprensa desde o início da tragédia mundial. E nas redes sociais repetiu-se que a competição no Brasil será um mata-mata no sentido literal. De acordo com a cabeça oca do governo, o certame será realizado em Natal, Brasília, Cuiabá e Manaus. A imprensa internacional já entrou nesse jogo e os jornais desta terça-feira, 1º, especialmente os europeus e os da América Latina, principalmente da Argentina, dizem que a realização da Copa América no Brasil representa um grande deboche, já que o país é o atual campeão de mortes pela Covid-19 no mundo. É um espetáculo dantesco. No fundo, os governantes brasileiros não têm vergonha na cara. Realizar essa Copa aqui representa mais um tapa no rosto da sociedade. Quase meio milhão de mortes, 15 milhões de desempregados, 20 milhões não têm o que comer, eis o Brasil. Esse é o país ideal para realizar a Copa América. A cabeça vazia do governo federal deve estar exultante e orgulhosa de seu feito. Estamos todos de parabéns.