Resposta do presidente da Anvisa a Bolsonaro foi contundente

Presidente questionou ‘interesses’ da agência ao liberar vacina para crianças de 5 a 11 anos

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 10/01/2022 14h15
Jefferson Rudy/Agência SenadoAntonio Barra Torres é presidente da Anvisa

A semana brasileira começa tensa. Mas já estamos acostumados com isso. Todo dia é dia de problema neste país. Ao ver sua competência científica e seu desempenho colocados em dúvida pelo presidente Jair Bolsonaro, na sexta-feira, 7, a Anvisa decidiu reagir ao ataque no sábado, 8, em ofício assinado por seu presidente, Antonio Barra Torres, que fez questão de colocar sua condição nas Forças Armadas brasileiras, esclarecendo estar respondendo como presidente da agência insultada e também como Oficial General da Marinha do Brasil, que já serviu o país por 32 anos até chegar nessa patente. Barra Torres pediu que Bolsonaro faça uma retratação pública e apresente as provas do que disse, especialmente no que se refere a ilegalidades ocorridas na agência ao liberar a vacina contra a Covid para crianças entre 5 e 11 anos. Ao comentar a aprovação da vacina para crianças, Bolsonaro perguntou: “Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí?”. Dirigindo-se à pessoa do presidente, Barra Torres observou que se o presidente da República dispõe “de informações que levantem qualquer indício de corrupção deste brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente”.

A seguir, pediu que Bolsonaro peça imediata investigação policial sobre sua pessoa ou qualquer outro que hoje trabalhe na Anvisa. Mais: “Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza de seu cargo e, pelo Deus que o Senhor tanto cita, se retrate”. Grande parte de políticos da oposição e também aliados reagiram à nova do presidente da Anvisa, dando-lhe apoio e afirmando que Bolsonaro tem a obrigação de se retratar pelas acusações que fez. A Anvisa começou a ser insultada por Bolsonaro após a agência autorizar a vacinação infantil, no dia 16 de dezembro de 2021. Dizendo ter o privilégio de comandar a Anvisa, Barra Torres observou que vai morrer sem conhecer a riqueza. Mas vai morrer digno. Disse a Bolsonaro que nunca se apropriou de nada que não fosse seu e nem pretende fazer isso à frente da agência. Afirmou prezar muito os valores morais que seus pais praticaram e que, pelo exemplo deles, pode somar ao seu caráter. Assinalou que sempre pautou sua vida com austeridade e honra.

Foi uma resposta contundente que prima, principalmente, pela indignação. O episódio representa o maior desgaste entre o governo e a Anvisa até hoje. A Anvisa, de reconhecimento internacional, teve seu trabalho enaltecido de maneira especial durante a pandemia, por sua atuação técnica no combate à doença que já matou 620 mil brasileiros. O fato de agora tornou praticamente impossível qualquer aproximação do governo com a agência. O que chama a atenção é que Barra Torres declinou sua condição de General da Marinha, como a dizer o que é. Barra Torres não pode ser exonerado por Bolsonaro porque, como presidente da Anvisa, tem um mandato a cumprir. Barra Torres observou ainda no seu ofício a Bolsonaro que, como cristão, sempre buscou cumprir os mandamentos e nunca levantou falso testemunho contra ninguém. Até a noite deste domingo, 9, o presidente não respondeu à manifestação de Barra Torres. E não se sabe se vai responder. Quer dizer: não tem jeito mesmo. O Brasil, todos os dias, trilha por caminhos da ofensa e do negacionismo enquanto a população só deseja paz para viver, especialmente numa época cada vez mais difícil. Infelizmente para todos os brasileiros, Bolsonaro se porta de uma maneira não adequada ao cargo que exerce. E faz questão de que seja assim. Não vai mudar nunca.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.