Se o país continuar como está, não há clima para que as eleições aconteçam em outubro

Discurso agressivo de Bolsonaro na última segunda-feira dá a entender que o pleito se tornou uma dúvida

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 20/05/2022 14h50
MOURÃO PANDA/O FOTOGRÁFICO/ESTADÃO CONTEÚDO urna eletrônica Eleições deste ano estão programadas para acontecer em outubro

Juntando algumas declarações do presidente Bolsonaro nesta semana que termina, uma conclusão é inevitável: o Brasil não terá condições de realizar as eleições de outubro. A continuar assim, não haverá clima. Claro que é arriscado dizer, mas conforme o andar da carruagem, não há como não pensar nesse desastre. Pelos discursos exaltados e repleto de palavrões do presidente Bolsonaro na segunda-feira, 16, por exemplo, pode-se concluir que as eleições de outubro estão de fato ameaçadas. A conclusão não pode ser outra. O presidente quase disse abertamente que não haverá eleições neste ano. Não disse, mais deixou essa ideia no ar. 

Falando a empresários do setor de supermercados, em São Paulo, Bolsonaro usou palavras agressivas e palavrões. As poucas vezes que foi aplaudido foi quando referiu-se à questão da economia no país. Mas quando se voltava contra o processo eleitoral brasileiro, ninguém aplaudia nada, muito pelo contrário. Fazia silêncio. Um grande silêncio. Ninguém mais aguenta essa conversa. Ao se referir às eleições de outubro, afirmou que “tudo pode acontecer” porque, conforme observou, “as eleições serão conturbadas”. Adiantou que o clima será muito perigoso depois das eleições, porque um dos lados dirá que a disputa não foi limpa.

Transformando em fato político um encontro que discutiria economia, Bolsonaro aproveitou para atacar Luiz Inácio da Silva, o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral: “Ou nós decidimos no voto para valer, contabilizado, auditado, ou a gente se entrega”, disse o presidente exaltado, como se estivesse discutindo com alguém. E ficou pior. Completando a frase, falando aos empresários, Bolsonaro disse: “E se a gente se entregar, vocês vão levar 50 anos ou mais para voltar à situação que está hoje em dia”. E repetiu palavras idênticas a semana inteira. De repente, no meio do seu discurso, o presidente jurou por Deus que nunca será preso. Mas alguém insinuou isso a ele? Alguém falou em prisão?

Foi, a exemplo de outros, um encontro constrangedor, do qual os empresários esperavam muito e só ouviram essa ladainha que se transformou em fixação na cabeça presidencial. Dá a impressão que ele dorme e acorda pensando nisso. E exatamente na mesma segunda-feira, 16, entidades e organizações da sociedade civil entregaram ao presidente do TSE, Edson Fachin, uma carta de repúdio as ataques do presidente Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral. Faz mais de 3 anos que Bolsonaro fala em fraudes eleitorais. Praticamente quase todos os dias. E ele mesmo admite que não dispõe de provas para as acusações que faz. A carta entregue a Fachin diz ser inadmissível que Bolsonaro atue de forma exatamente oposta aos seus deveres jurídicos e institucionais, fazendo “ataques infundados, dúvidas e afirmações desprovidas de respaldo técnico e racional”. 

O pronunciamento da segunda-feira foi mesmo melancólico. Não é exagero concluir, não é mesmo, que as eleições de outubro tornaram-se uma dúvida. Simplesmente podem não acontecer e ponto final. É o que nos diz o presidente da República por meio de outras palavras exaltadas. Este colunista não teme dizer que o recado, com discursos que cada vez avançam mais para esse cenário. Aliás, ele mesmo tem dito que o clima atual é o mesmo de 1964. Precisa dizer mais?

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.