Tudo continua como já estava após conversa entre Bolsonaro e Luiz Fux

Presidente da República ouve pedido por respeito às instituições e reza até o ‘Pai Nosso’, mas volta a defender o voto impresso e diz que apresentará provas de fraude nas eleições de 2018

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 13/07/2021 13h13 - Atualizado em 13/07/2021 13h26
Dida Sampaio/Estadão Conteúdo - 12/07/2021Após conversa com Luiz Fux, presidente do STF, Jair Bolsonaro dá entrevista no Salão Branco da Corte

Antes que esta zona desande de vez, o presidente do STF, Luiz Fux, resolveu chamar o presidente Jair Bolsonaro para uma conversa que aconteceu no final da tarde desta segunda-feira, 12. Coube ao governo colocar o encontro na agenda presidencial com alguma pressa. Não foi uma conversa agradável. Houve até um trecho do “Pai Nosso”, rezado por Bolsonaro: “Perdoai nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido”. Orações à parte, Fux foi direto, sem rodeios e cumprimentos solenes. Pediu a Bolsonaro respeito aos limites constitucionais e marcou com o presidente uma reunião entre os três poderes porque o país está se enfiando cada vez mais no buraco em que se se meteu, vítima da inconsequência de muitos, especialmente do Palácio do Planalto. Essa reunião, segundo o magistrado, tentará fixar balizas sólidas para a democracia brasileira, tendo em vista a estabilidade do regime político do país. Em outras palavras, a zona não pode perder o controle.

Do jeito que está não dá mais para seguir. O caldo entornou de vez depois que Bolsonaro chamou de “idiota” e “imbecil” o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e membro do STF. Além do insulto, Bolsonaro havia afirmado que sem o voto impresso, que ele exige, não teria eleição em 2022. Aí já é demais. Não são palavras que um presidente da República pode dizer ao seu bel prazer, sem nenhuma consequência. Como não haverá eleição? Que conversa é essa? O presidente acha que pode tudo, mas não pode. Não é assim. Não pode ser assim. Luiz Fux afirmou no encontro que é importante para a democracia brasileira o respeito às instituições e os limites impostos pela Constituição Federal. Fux observou, depois, que Bolsonaro entendeu e até se utilizou de um momento evangélico porque gosta de rezar todos os dias. Já o chefe do Executivo ficou na dele, disse que não é bem assim, minimizando as palavras do presidente do STF, declarando que “estamos todos perfeitamente alinhados, respeitosos com a Constituição”. Afirmou, ainda, que cada um tem de policiar o seu poder, dando sua palavra de que o Planalto não pretende desrespeitar os limites.

Foi uma conversa rápida, de 20 minutos, até porque ninguém está a fim de conversar muito, já que a zona está cada vez pior. E quando um país é comparado com uma zona, muitas vezes não tem mais jeito. No final de tudo, para não perder o costume, Bolsonaro voltou a defender o voto impresso, dizendo que não tem nenhum problema com o STF. Só tem com o presidente do TSE. Tanto é que afirmou que Barroso está tendo um ativismo na questão do voto impresso que não é concebível. Bolsonaro deixou claro: no caso de o Congresso não aprovar o voto impresso, ele exigirá a contagem pública, alegando que uma eleição sem o comprovante impresso não pode ser considerada eleição.

No fim, Bolsonaro confessou que se arrepende de ter momentos explosivos quando fala, discursa ou usa as redes sociais. Admitiu que, em muitos momentos, perde as estribeiras. Informou que pediu um prazo ao TSE para apresentar as provas que tem sobre as fraudes nas urnas eletrônicas. Disse que o especialista que está colhendo os dados que corroboram sua afirmação está com Covid-19 e só poderá falar em algumas semanas. Quer dizer, tudo continua como antes. Não muda nada. Marcar mais reunião para quê? Cada um vai seguir o seu caminho, como lhe der na veneta, e fica tudo por isso mesmo. Nunca vamos nos esquecer que isto aqui é o Brasil. E, sendo Brasil, o cenário é esse que aí está. Respeitar os limites é coisa civilizada demais. Não serve. Quem deve rezar o “Pai Nosso” é a população.