Tudo o que falta ao Brasil é um decreto que atrapalhe o isolamento social

Com uma ideia fixa de contestar as medidas adotadas por prefeitos e governadores, presidente não mede esforços para impor seu pensamento e desafia o STF, que ninguém mais respeita

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 07/05/2021 12h28 - Atualizado em 07/05/2021 12h52
DHAVID NORMANDO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - 18/12/2020 O presidente Jair Bolsonaro deseja editar um decreto que impeça as medidas restritivas no Brasil

Tem nos custado bem caro esse descaso com a ciência no que diz respeito à Covid-19. E custará mais ainda. Não se pode admitir que uma só pessoa  seja a dona de todas as verdades. Seja ela quem for. O que se vê no Brasil é muita raiva para se discutir esse assunto. Aquele ódio para o qual existia (ainda existe?) até um gabinete especial no Palácio do Planalto. O presidente anuncia medidas que chegam a chocar os que ainda conseguem pensar neste país. Não pode um presidente da República ter a intenção de proibir seu povo de seguir a orientação da ciência para salvar sua vida. Não pode. Isso é coisa para os Stalins da história. E a história atual do mundo não admite mais figuras como Stalin. De qualquer maneira, essas figuras ainda existem. Muitas vezes, bem perto de nós, enfiando um parafuso na cabeça dos desavisados. O que deseja o presidente? Que todos saiam às ruas, que se abra tudo, cinemas, teatros, restaurantes, bailes e tudo o mais? O presidente deseja esse cenário, até que todos caiam mortos? Não tem compreensão nenhuma do mal que ataca o mundo. Não acredita. Ele tem seu remédio próprio e quer enfiá-lo goela abaixo nas pessoas. Não é assim. Mesmo sendo ele o presidente da República, não pode tudo.

O Brasil se transformou num país cada vez mais difícil de viver. Num discurso inflamado na terça-feira, 4, Bolsonaro disse que estuda a edição de um decreto para garantir o “ir e vir” das pessoas, conforme determina a Constituição. Afirmou que, se chegar a editar esse decreto, tribunal nenhum do país vai contestá-lo. Só nos faltava isso. Aqueles brasileiros que ainda guardavam uma tímida esperança de que o presidente da República iria um dia mudar seu comportamento podem desistir, isso nunca vai acontecer. Ele continua e continuará crítico do isolamento social para combater a Covid-19, não mudará por nada. É uma ideia fixa. E quem tem ideia fixa enlouquece a si mesmo e aos outros. Fica todo mundo louco. Quando disse que tribunal nenhum vai contestar seu decreto contra o isolamento social, o presidente estava provocando o Supremo Tribunal Federal, que quase mais ninguém respeita no país, tais são as decisões que toma e, especialmente, o benefício que oferece aos bandidos corruptos dos piores do Brasil. O STF é apenas um tribunal qualquer, como se fosse uma repartição pública do quinto escalão. Infelizmente é assim.

Os alvos agora são os prefeitos e os governadores que tomam decisões para restringir as aglomerações, maneira que todos os países do mundo adotam como proteção. No Brasil, não. O Brasil é diferente. Para editar o seu decreto, o presidente evoca o artigo 5º da Constituição, que garante ao cidadão o direito de ir para onde quiser, de participar de cultos religiosos e trabalhar. Bolsonaro ainda não esqueceu o que disse na terça-feira, 4. Não. Pelo contrário. Está analisando a situação. E se chegar a editá-lo, ele assegura que seu decreto será cumprido. Ninguém ousará questioná-lo. Até porque o Congresso estará ao seu lado. “Não ousem contestar, quem quer que seja!”, disse o presidente. Claro, foi uma explosão nos ânimos dos brasileiros, com a autoestima cada vez mais baixa, numa verdadeira falta de expectativa em relação a tudo.

Já no outro dia, quarta-feira, 5, o ministro decano do STF, Marco Aurélio Mello, respondeu a Bolsonaro, dizendo, inicialmente, que é preciso dar um desconto nos discursos do presidente para que os ânimos do Brasil não fiquem mais acirrados do que já estão. Mas afirmou que essa ideia de um decreto contra as aglomerações não passa de um “arroubo retórico”. Observou que vivemos em uma República, numa democracia em que não se pode afastar o Judiciário. E que as decisões têm que ser acatadas. Assim, não existe decreto nenhum que não possa ser contestado. O presidente do STF, Luiz Fux, por sua vez, disse na quarta-feira, 4, que a fala de Bolsonaro foi uma “retórica para a plateia”, uma “cortina de fumaça”. Fux foi claro e incisivo: Bolsonaro não tem apoio para colocar em prática o que pensa. No seu discurso, Bolsonaro voltou a criticar a conduta dos prefeitos e dos governadores na pandemia. Uma conduta que, como ele disse representa uma “excrecência”. Eta paizinho este em que vivemos! Em que nos exaurimos. Em que nos derrotamos. Eta paizinho este chamado Brasil! Sempre envolvido em intrigas, discussões estéreis, desmandos e valentias ocasionais para tratar de problemas que exigem seriedade. Mas seriedade no Brasil é artigo de luxo. Está em falta.