Vacinas contra a Covid-19 foram ignoradas no início, e o cenário atual não poderia ser diferente

No ritmo que está, o Brasil poderá vacinar 70% da população até o final de dezembro, e o país terá alcançado a imunidade coletiva; mas quem garante?

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 21/06/2021 13h23
SAULO ANGELO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO Neste domingo, o Brasil recebeu 842 mil doses da Pfizer por meio do consórcio Covax Facility

O que dói mais: dizer 500 mil ou meio milhão de mortos? Os números são iguais. E o que fez o Brasil chegar a esse patamar causa indignação, pelo menos naqueles que reparam bem na realidade deste momento perverso. O que diferencia o Brasil de outros países do mundo é o descaso do governo em relação à Covid-19. Esse descaso que, muitas vezes, representou um deboche, é causador desse número doloroso diante da tragédia que atingiu o mundo e que, no Brasil, ocorreu de maneira aviltante. Meio milhão de mortos e, aos atingidos pelo vírus, o governo insistiu e ainda insiste, criminosamente, em oferecer medicamentos ineficazes, de acordo com a normas da ciência do mundo inteiro. E o número de novos casos não diminui. Continuamos sendo presas fáceis. O Ministério da Saúde, nesse cenário de sombras e angústias, praticamente não existe. Só existe o nome, mais nada. Em seu lugar, há um outro “ministério” paralelo que determina a conduta governamental diante desse flagelo. As famílias dos 500 mil mortos nunca receberam uma única palavra de conforto de um governo ausente e arrogante diante de um mal que ninguém sabe onde vai chegar.

No Brasil, é certo que esse desespero chegue ao limite do que o homem pode suportar. Basta dizer que a média de mortes nos últimos sete dias supera 2 mil. E os números indicam uma tendência de alta. E como se porta o governo? Exatamente como foi desde o início de tudo, quando o coronavírus surgiu a partir da China. Primeiro, negou-se a ameaça do vírus, depois negou-se a pandemia, a seguir, zombou-se até do número de mortos, o distanciamento social, as aglomerações e, agora, nega-se até a vacinação e a máscara no enfrentamento da doença. São questões ignoradas por um governo insensível à dor de seu povo. De 17 março até 10 de maio deste ano, foram 55 dias seguidos com essa média sinistra de 2 mil mortes diárias. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) observa que a razão dessa escalada é a falta de uma política nacional de prevenção, controle e segurança por parte do governo federal. Diante desse descaso, muitos Estados e municípios deixam de seguir os critérios baseados na ciência, abandonando até mesmo o isolamento social. Uma situação assustadora: os especialistas asseguram que o Brasil poderá contar 850 mil mortes até que o país chegue ao número de vacinados suficiente para fazer a pandemia recuar. Mas o que se vê, infelizmente, é o mesmo descaso de sempre num país que já teve quatro ministros da Saúde.

No Brasil, o governo é um aliado do vírus. Não existe combate. Agora, até a vacinação sofre críticas de um governo distante de uma questão que, em países civilizados, sempre mereceu enfrentamento especial. Isso não existe no Brasil. As vacinas chegam a conta-gotas, quando, se tivesse havido responsabilidade, seriam compradas logo de início, quando as primeiras covas, com pequenas cruzes azuis, começavam a ser abertas nos cemitérios brasileiros. Mas não foi assim. Ignorou-se completamente a oferta de vacinas, de forma que o cenário atual não poderia ser diferente. De acordo com a Fiocruz, o maior risco agora no país está entre os mais jovens. Na sexta-feira, 18, Bolsonaro voltou a insultar os governadores ao discursar em cerimônia em Marabá, no Pará. Disse que o direito de ir e vir é sagrado, como a liberdade ao trabalho e ao culto. Lamentou que muitos governadores preferiram fechar o comércio, obrigaram o povo a ficar em casa, decretaram lockdowns e toque de recolher. Para Bolsonaro, essas atitudes atingem a dignidade da pessoa humana. “Este presidente que vos fala não fechou um botequim sequer”, afirmou, acrescentando que a liberdade é nosso bem maior, acima da própria vida. O presidente se orgulha de ser o único governante do mundo a agir assim. Um orgulho cercado por meio milhão de sepulturas e famílias que choram pelas vidas perdidas de entes queridos.

O que de fato pensa o governo sobre o meio milhão de mortos está resumido na nota divulgada pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria, um verdadeiro pouco caso a uma realidade dolorosa. Escreveu que artistas, políticos e jornalistas vão “lamentar” o número de 500 mil mortos. Destaque-se a palavra “lamentar” entre aspas, conforme quis o ministro, dizendo que os que pertencem a essas categorias nunca vão comemorar a vacinação ou os 18 milhões de pessoas que se curaram, porque o tom é sempre “quanto pior, melhor”. Não se compreende como um ministro do governo tenha o descaramento de divulgar uma nota assim, em momento tão dramático. No ritmo da vacinação atual, o Brasil poderá vacinar 70% da população até o final de dezembro, se forem vacinadas um milhão de pessoas por dia. Se for assim, o país terá alcançado sua imunidade coletiva. Mas quem garante? Ninguém garante nada. O problema é a disponibilidade da vacina. Nessa área mora a incerteza. O presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, esclarece que o Brasil depende dos laboratórios internacionais. Esse é um fator fundamental na tentativa de cumprir os planos para 2021. Convém lembrar que os atrasos na entrega das vacinas são constantes, mas esse risco é considerado menor no segundo semestre. O que tem que mudar mesmo é o descaso de um governo insensível, que faz questão de prosseguir com uma política de negar tudo. Quem tem razão é o chefe do governo, ninguém mais. Ele está acima de bem e do mal. Nega a realidade e meio milhão de mortos não significam nada. O consolo é sonhar que algum dia os responsáveis por essa tragédia ainda vão pagar pelo crime que praticaram.