Vídeo do presidente Bolsonaro comendo frango com farofa é apelativo

Imagens são tão constrangedores que desagradaram até a base aliada

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 03/02/2022 14h36
Alan Santos/PR - 31/01/2022) Jair Bolsonaro em frente a um banner em que a palavra energia é legível, ainda que desfocada Imagens de Bolsonaro comendo frango repercutiram nas redes

O poder deve ser algo fascinante. Ser poderoso, estar acima de outras pessoas, aquele que manda e desmanda. Faz-se de tudo para conquistar essa condição. Qualquer coisa. Até protagonizam-se cenas lastimáveis que reduzem a figura do ser humano. Apelações que representam grande tristeza. E infelizmente, essas cenas, tantas vezes, partem de pessoas que chegam a causar espanto. Tem uma hora que as coisas  passam do limite. Até os protagonistas percebem que ultrapassaram a linha do bom senso. É muita apelação. É o que aconteceu com um vídeo do presidente da República postado nas redes sociais na segunda-feira, 31, e tirado no dia seguinte, diante da repercussão negativa. Afinal, por que um presidente da República acha que precisa descer a esse nível para se mostrar ao seu país?

O vídeo mostra Bolsonaro comendo frango com farofa com as mãos numa barraca de Brasília, com a comida espalhada pela roupa e pelo chão. O presidente, malvestido, de bota surrada, daquelas da roça, se esbalda diante do que está comendo, frango com farofa. É profundamente constrangedor, tanto que desagradou até a base aliada e a oposição. A ideia talvez fosse mostrar ao eleitor que Bolsonaro é um homem do povo, igual a todo mundo. A maior parte dos internautas reagiu de maneira desfavorável, mas uma parte bateu palmas. O Ministério das Comunicações tratou logo de apagar o vídeo, mas ele continua nas redes de alguns aliados, como o filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro e o assessor especial da Presidência, tenente Mosart Aragão. É uma peça lamentável que, no final, revela nossa pobreza de espírito. E é uma pena que um presidente da República se submeta a isso, tentando passar a ideia de um brasileiro comum, desses que perambulam por aí procurando emprego ou comida para levar para os filhos.

Na verdade, coisas assim são costumeiras na trajetória política de Bolsonaro. Internautas inteligentes escreveram que aquela imagem lamentável não mostra o homem simples. O homem simples não come com as mãos, o chão cheio de farofa, a roupa suja de comida. O brasileiro simples não é assim, como pensa o presidente. Um internauta que se assina Fried escreveu: “Acho engraçado que Bolsonaro pense que o pobre é porco. Todo pobre é honesto e limpo. Ser porco que come sem prato e suja todo o chão de farofa é coisa de vagabundo, não de gente humilde”. Esse foi o teor praticamente geral dos internautas que assistiram a essa peça que chega a causar repulsa. Os internautas que prestam atenção nas coisas perceberam de imediato a ideia da propaganda política ali exposta num vídeo lastimável, que, no fundo, subestima o próprio povo.

A gravação dessa pobreza foi feita no domingo, 30, durante um passeio de moto de Bolsonaro, que estava acompanhado do filho vereador no Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, que fez o vídeo, compartilhado no próprio domingo, como se fosse uma criação inteligente. Mas não é assim. As coisas são bem estudadas e muitos ainda acreditam que funciona mostrar ao eleitorado um presidente da República comendo uma comida que parece resto. Pelo menos é isso que o vídeo passa. Quer dizer que o homem simples do povo é assim? Sujo, comendo com as mãos, o chão cheio de pedaços de comida, uma roupa que mais parece farrapos? É assim o brasileiro, o homem simples do Brasil? A repercussão nas redes foi péssima. Então o governo tratou logo de apagar. Mas o vídeo continua por aí, para quem quiser assistir, especialmente as pessoas de mau gosto e que admiram cenas miseráveis. Foi mal. É difícil acreditar que um presidente da República se submeta a cenas assim. Chega a ser inacreditável. Os amigos mais próximos dirão que Bolsonaro é assim mesmo. Podem dizer, mas esse vídeo é uma peça apelativa que passou do limite de zombar da inteligência alheia. Mau gosto demais até para aqueles que admiram o presidente. O vídeo representa uma agressão e uma injustiça ao povo brasileiro, especialmente os mais humildes.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.