Os riscos de a inflação ir além do previsto

Mais do que o impacto sobre os custos das empresas e o poder de compra da população, preocupa a persistência de uma inflação mais alta, que já levou o Banco Central a elevar os juros

  • Por Denise Campos de Toledo
  • 19/07/2021 16h29
Arquivo/Agência BrasilNo Brasil, as projeções do mercado para o IPCA deste ano, de acordo com o relatório Focus, já chegaram a 6,31% em média

A inflação tem sido uma das principais preocupações globais, criando uma grande dúvida quanto à perpetuação, ou não, de aumentos ainda muito relacionados às condições colocadas pela pandemia. No Brasil, as projeções do mercado para o IPCA deste ano, de acordo com o relatório Focus, já chegaram a 6,31% em média. No primeiro momento da crise, em 2020, houve um forte desequilíbrio entre oferta e demanda com a interrupção de atividades em vários países. Aos poucos, alguns segmentos retomaram o trabalho presencial, enquanto o home office estabelecia novas demandas, paralelamente aos programas de estímulo, como o auxílio emergencial no Brasil, que asseguraram maior poder de compra.

A demanda por alimentos e outros produtos cresceu em todo o mundo, sem que houvesse ampliação proporcional da oferta. A forte reação da China, seguida pela retomada também dos Estados Unidos, levou a um aquecimento do mercado de commodities, mesmo em meio à crise sanitária. Da mesma forma, no mercado doméstico, houve forte aumento do consumo de comida no domicílio, eletroeletrônicos, móveis, material de construção. Dispararam os preços de alimentos, minério, aço, combustíveis, com o impacto também no varejo. Movimento que, no Brasil, ainda foi impulsionado pela alta do dólar frente ao real. Faltaram peças, chips, componentes para a indústria e insumos para a construção.

Agora estamos numa fase em que os preços das commodities começam a perder força, até com algumas quedas no atacado, como mostram os IGPs. A Opep definiu um aumento na oferta de petróleo, mas alguns desequilíbrios persistem, comprometendo até a produção em determinados setores. Toda essa situação deixou um forte aumento de custos, reforçado, no mercado brasileiro, pelas correções mais fortes de preços administrados, como combustíveis, gás e energia. Além do impacto sobre os custos das empresas e o poder de compra da população, fica a preocupação, como ressaltei no início, quanto à persistência de uma inflação mais alta, que já levou o Banco Central a elevar os juros, num processo que pode se intensificar até 2022. Preocupação que também pode mexer com as políticas implementadas em vários países. Um forte fator de instabilidade para o mercado global tem sido a possibilidade de o Federal Reserve, nos EUA, antecipar os cortes de estímulos e até da elevação dos juros, em relação ao que vem sinalizando formalmente, diante do risco de a inflação se manter acima da meta com mais intensidade que se esperava.

Juros em alta nos Estados Unidos desviariam recursos de outros mercados, mesmo que tenham rentabilidade maior, como tem ocorrido no Brasil com as elevações da Selic. A questão é que o fator risco também pesa muito na atratividade. Por mais que ainda se conte com a acomodação dos índices, nota-se também, na composição da inflação de varejo, pressões mais fortes dos núcleos, com espalhamento maior dos reajustes, sendo que a retomada mais firme da atividade pode dar mais condições para a reposição de custos e das margens de ganho. A elevação dos juros é uma estratégia para minimizar esse risco e fazer a inflação retornar para um patamar compatível com a meta do próximo ano. Problema é que, por enquanto, as projeções continuam sendo reforçadas por novos choques de preços. E preços que não sofrem influência dos juros, como energia que, potencialmente, ainda pode trazer mais pressões, diretas e indiretas, via custos. É por tudo isso que o mercado já espera a Selic em 6,75% no final do ano e 7% ou até mais no fechamento de 2022, torcendo para que não haja o aumento dos juros nos EUA, comprometendo os efeitos esperados desse ajuste da Selic.