Aumento das exportações agrícolas vai se traduzir em inflação ao consumidor – e vai incomodar

Com o câmbio a favor somado à infraestrutura arrojada deste setor, temos chance de continuar como ‘celeiro da China’ e, quem sabe, avançar para outros países

  • Por Fernanda Consorte
  • 02/03/2021 10h53
Tania Regô/Agência BrasilBalança comercial de fevereiro tem superávit de US$ 1,152 bilhão

A frase “o Brasileiro é o celeiro do mundo” foi muito difundida nos últimos anos pré-crise, mas nunca foi tão atual como em 2020. Em que pese que não somos o celeiro do mundo, mas talvez o celeiro da China, tivemos um bom desempenho da balança comercial em 2020, ano que o mundo se fechou. A balança comercial cresceu em relação a 2019, mas basicamente porque nossas importações despencaram em proporção maior que a queda das exportações. Mas dentro das exportações alguns setores se salvaram, em especial o agrícola, e tudo indica que em 2021 também será a vedete da vez. As exportações de básicos foram o único fator agregado que mostrou crescimento em 2020, e em 2021 também seguiu crescendo. 

Com o câmbio a favor somado à infraestrutura arrojada deste setor, temos chance de continuar como celeiro da China e, quem sabe, avançar para outros países. Porém, em 2021, uma coisa tem chamado bastante atenção e deve dar uma força (e tanto) para que esse segmento se mantenha firme: os preços de commodities. As cotações em dólar das 19 principais commodities agrícolas, metálicas e de energia subiram cerca de 40% de abril de 2020 (o fundo do poço na pandemia) até agora, de acordo com o índice Commodity Research Bureau (CRB). Claro que empresas cujo produto estão entres os básicos seguem felizes em 2021, e devem contribuir positivamente para a balança comercial, o que soa bastante alegre aos nossos ouvidos, dado que a pandemia não parece dar folga. Por outro lado, um contínuo aumento dos preços de commodities traz consequências para o restante da cadeia, em um período que não estamos exatamente na bonança econômica. Commodities são referências no comportamento de matérias-primas em geral e preços no atacado. 

O IGP-M, indicador de inflação com cerca de 60% de seus componentes com preços no atacado, já acumula alta de 28,9% nos últimos 12 meses até fevereiro de 2021. Muito em resposta do forte aumento da taxa de câmbio no ano passado. Porém, importante ter em mente que mais de 10% do IGP-M refere-se a commodities agrícolas, e que certamente serão repassados ao restante da cadeia, sobretudo os alimentos. O mesmo deve acontecer com minério de ferro, importante commoditie da nossa pauta exportadora e, por consequência dos preços. E aqui, meus colegas, a cadeia produtiva é enorme e atinge vários setores industriais importantes.

O que quero dizer com tudo isso? Que inevitavelmente esse aumento feliz das exportações agrícolas, trazendo o Brasil para os holofotes de agropecuária – e que é uma notícia muito boa para parte da população – vai se traduzir em inflação ao consumidor. Vai incomodar. E qualquer melhora na atividade econômica com a evolução da vacinação vai dar mais espaço para repasses de preços. Claro que ser exportador de commodities após toda a preparação tecnológica que os produtores fizeram nas últimas décadas é muito importante. Mas isso deveria ser exemplo para o restante dos setores e segmentos do Brasil, sobretudo para o setor público. Não podemos ser macroeconomicamente penalizados pela evolução e ganho de um setor, o país deveria estar preparado para isso, ainda mais sob o pseudônimo de celeiro do mundo. É preciso, portanto, resolver a questão fiscal, destravar o ambiente de negócios e acelerar investimento, aumentando o crescimento potencial. Até quando?