Brasil flerta com os juros de dois dígitos e se distancia do namoro com o crescimento econômico

Banco Central já avisou que fará de tudo para trazer a inflação para a meta, mas o jogo contrário da política fiscal, assim como a postura do governo, impede a atração de capital para o país

  • Por Fernanda Consorte
  • 28/09/2021 13h07
Beto Nociti/BCBBanco Central passou a Selic para 6,25% após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom)

Os indícios são todos para uma taxa de juros de dois dígitos novamente. Desde 1999, quando se iniciou o sistema de metas de inflação — e, por isso, temos hoje uma taxa Selic meta conforme decisões do Copom —, esses últimos quatro anos podem ser caracterizado pelo período mais longo com taxa de juros mais baixas no país. Até tivemos um ensaio de taxa de juros de um dígito em 2009, mas durou coisa de meses. Assim, esse último ciclo foi vencedor, porém não tão duradouro. A economia brasileira tem memoria inflacionária. Quando o calo aperta, as medidas fiscais correm soltas, dando fomento a aumento de preços mesmo em ambiente de baixo crescimento. Pode recorrer a livros de história econômica, essa frase é o resumo do Brasil. 

No ano passado, não foi diferente, resultando nesta combinação de inflação e baixo crescimento. O Banco Central atual, com perfil arrojado e transparente, já avisou que a contenção da inflação parece estar sob suas costas, dado que a política fiscal tem ido em mão contraria. E não baixou a cabeça: disse que fará que for preciso para trazer a inflação para meta. Ou seja, os juros brasileiros já flertam com dois dígitos, não tem jeito. Além de ser danoso para crescimento econômico, o ciclo atual também não está permitindo a valorização do real. O jogo contrário da política fiscal, assim como a postura do governo, impede a atração de capital para Brasil — de todo o tipo, transitório ou de longo prazo. Então, sem oferta de dólares, a taxa de câmbio fica pressionada. Hoje já falamos em US$/R$ 5,4 novamente. 

Embora, de novo, o Banco Central tenha vindo para tentar salvar a lavoura, e anunciou que fará dois leilões extraordinários de swap cambial por semana, às segundas e às quartas, ainda assim os fundamentos falam mais alto e o anúncio de intervenções não fez verão. Assim como a divulgação da ata do Copom da reunião da semana passada, que reforçou a visão de que o Banco Central seguirá aumentando juros, inclusive o ritmo de alta (que já está em 1 ponto percentual!), não foi suficiente para tirar a pressão da taxa de câmbio. Há motivos internacionais que sustentam a taxa de câmbio brasileira em patamar alto? Sem dúvida. Mas os motivos locais, a ausência de uma boa história para contar e atrair investidores, traz o real para o pior desempenho em relação aos pares emergentes. E não será taxa Selic em dois dígitos que mudará essa percepção.