Corrida eleitoral no Brasil chega junto com o aumento das incertezas

Segundo pesquisa divulgada nesta terça-feira, 17, crescem as avaliações negativas do governo Bolsonaro; para o mercado, queda na popularidade pode levar a medidas mais populistas por parte do presidente

  • Por Fernanda Consorte
  • 17/08/2021 16h02
Montagem/Estadão Conteúdo/Alan SantosNo levantamento da XP-Ipespe, Lula aparece com 40%, enquanto Bolsonaro tem 24%

As eleições chegaram, e um semestre antecipadas. Infelizmente, isso não significa que acabarão antes do previsto, apenas sugere que o estado de “sofrimento” será mais longo, afinal, ninguém vive bem com incertezas. Ok, talvez haja quem curta o desconhecido, mas garanto que o mercado financeiro não. Regra básica: quanto maior a incerteza, pior a volatilidade e, em geral, piores os preços de ativos. Nesta terça-feira, 17, foi divulgada uma pesquisa relevante feita pela XP-Ipespe de avaliação do governo e da corrida eleitoral (foram realizadas mil entrevistas, de abrangência nacional, de 11 a 14 de agosto), que mostrou continuidade na tendência de crescimento das avaliações negativas do presidente Jair Bolsonaro. Na verdade, os números de hoje mostram a pior avaliação da história do governo. Segundo a pesquisa, 54% já dizem considerá-lo ruim ou péssimo contra 52% no mês passado, um crescimento constante desde outubro de 2020. O percentual bom ou ótimo hoje é de 23%, sendo que há poucos meses a marca era de 39%. 

Claro que uma piora de avaliação perto de uma corrida eleitoral levanta dúvidas em relação a reeleição, coisa que nosso presidente sempre deixou claro que almeja. Embora não tenha dado a largada oficial da corrida eleitoral, ou seja, não tenhamos os candidatos oficiais, e o próprio Bolsonaro ainda não tenha filiação partidária (no Brasil, os políticos sem partido não podem disputar eleições a cargos públicos — a Constituição, em seu artigo 14, §3º, inciso V, diz que “são condições de elegibilidade: V – filiação partidária”), sabemos que o pleito de 2022 deve seguir sua característica de polarização. Desta vez, muito provavelmente entre os ex-presidente Lula e o atual Bolsonaro.  Olhando a pesquisa, vemos continuidade do crescimento das intenções de voto no ex-presidente Lula. Ele aparece com 40%, enquanto Bolsonaro tem 24%. O nome de Lula voltou a ser testado em março, e desde então vemos constante aumento de intenções de voto no petista. 

Outros nomes são Ciro Gomes (com 10%), Sergio Moro (com 9%), Mandetta e Eduardo Leite (ambos com 4%). Vale ressaltar que Lula também cresce no levantamento espontâneo (quando não são apresentadas opções de candidatos aos entrevistados), enquanto Bolsonaro segue estável. E, finalmente, num cenário de segundo turno, Lula ampliou vantagem sobre Bolsonaro (agora com 51% versus 32%). Essas informações fazem cada vez mais preço no mercado. Hoje o resultado trouxe uma leitura negativa. Contudo, na minha visão, a piora nos preços dos ativos não está ligada a possibilidade de Lula ganhar as eleições e sim no que o presidente Bolsonaro pode fazer para mudar esse quadro. Acredito que o mercado leu que a queda na popularidade pode levar a medidas mais populistas por parte do presidente, ou seja, um aumento ainda maior do que o esperado para o novo programa social, o Auxílio Brasil, sem contrapartida de cortes de gastos. Isso, sem dúvidas, geraria mais motivos de preocupação com as contas fiscais, afetando ainda mais a imagem institucional do Brasil. Foi dada a largada da corrida eleitoral.