Corrida presidencial, CPI da Covid-19 e eventual crise hídrica geram volatilidade no mercado

Atividade econômica surpreende e deve devolver a recessão de 2020; porém, a sustentabilidade de crescimento da economia brasileira ainda é uma incógnita

  • Por Fernanda Consorte
  • 15/06/2021 10h07
Marcello Casal Jr/Agência BrasilSegundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, a expectativa do mercado para o IPCA neste ano é de 5,8%

Recentemente, no banco onde trabalho, divulgamos nosso relatório de atualização de cenário brasileiro. Divido aqui com vocês nossas expectativas. Contudo, a impressão do filosofo Sartre sobre o Brasil nos 60, de que somos um “estranho país surrealista”, ainda me bastante parece acurada. A incerteza ainda predomina qualquer aposta. Enquanto os dados de mercado mostram uma figura mais otimista do Brasil, seguimos criando jabuticabas próprias, como a inflação numa recessão, ou ausência de fluxo de investimentos com tamanha necessidade de infraestrutura; e claro, nossos governantes com várias bandeiras de atenção. A parte boa está no exterior, na verdade. As perspectivas são de forte crescimento do PIB dos Estados Unidos e recuperação no Reino Unido e na China. Aqui, o destaque está para uma visualização mais clara de quando teremos parte importante da população vacinada. O governador de São Paulo, no último domingo, antecipou o calendário vacinal, e como o Estado de São Paulo responde por cerca de 30% do PIB e da população do Brasil, essa notícia acalenta os mercados e as expectativas dos agentes. E acabou, acho que era isso de bom que queria dividir com vocês. Daqui para a frente, encaramos os problemas surrealistas do Brasil. 

Por exemplo, reconhecemos e acreditamos ser possível o Brasil crescer cerca de 5% este ano, dando tudo certo até dezembro. Mas o clima de eleições e desafios conjunturais brasileiros devem nos deixar aquém do mundo. Nossa recuperação deve ser mais lenta e com solavancos, sobretudo na ausência de evolução de reformas. Em 2022, um crescimento de 2% nos parece razoável. Em meio a esse abre e fecha da economia, uma segunda onda de contaminação que se junta na terceira, atraso na vacinação, CPI da Covid-19 e mensagens descompassadas das autoridades brasileiras, nossa imagem institucional vai se manchando. Não tem jeito, sem história boa para contar, não há investimentos maciços. Então, penso que a taxa de câmbio será inferior à de 2020, mas ainda distante do pré-crise da Covid-19 e com alguma depreciação em 2022. Ou seja, o cenário está bem desafiador, e não contaria com a bonança das últimas semanas como uma tendência. Chutaria mais provável o dólar chegar ao final desse ano perto de R$ 5,2 do que abaixo de R$ 5. Vamos ver.

E aí seguimos com inflação. Temos o agravante de crise hídrica, e energia elétrica tem um peso significativo dentro dos índices. A eventual (já contratada?) alta no custo da energia será transferida para o consumidor, pressionando ainda mais os indicadores. Hoje, o mercado tem uma expectativa de 5,8% para o IPCA neste ano, voltando para a meta em 2022. Nós achamos que será mais. A taxa Selic seguirá os mesmos passos. Acredito, inclusive, que na reunião de amanhã, o Banco Central já deve endurecer o discurso e levantar mais riscos. Resumão? Por um lado, a atividade econômica nos surpreendeu e deve devolver a recessão de 2020; porém, a sustentabilidade de crescimento é uma incógnita. Por outro lado, os riscos estão no cenário político e em como será a condução da corrida presidencial. Adicionalmente, os desdobramentos da CPI da Covid e a eventual crise hídrica jogam contra o governo e, também, contra a imagem do Brasil, gerando a já tradicional volatilidade no mercado financeiro. Agora me contem, a percepção de Sartre estava certa ou não?